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Por que sentimos culpa por não estarmos ocupados?

Saiu de férias e achou que seria desligado? Fica angustiado sem nada para fazer? Pressionado para estar sempre ocupado? A resposta está em como o seu cérebro percebe o trabalho e como você se relaciona com o julgamento social.

Colunista Wesley Barbosa

Wesley Barbosa

14 de Setembro

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Artigo Por que sentimos culpa por não estarmos ocupados?

A sugestão do darwinismo é que o sentido da vida seria sobreviver e reproduzir. Dentro destes dois sentidos há universos que direcionam e impactam nossas decisões diariamente.

Se estudarmos os estímulos neuronais para entender como tomamos decisões para nos mantermos vivos, iremos nos deparar com sentimentos bem conhecidos. Um deles é o sentimento de culpa.

Apesar da culpa estar associada ao córtex pré-frontal, a parte do pensamento lógico do cérebro, ela também pode ativar o sistema límbico. Por isso sentimos crises de ansiedade quando nos sentimos culpados.

Entretanto, se formos equacionar o problema desconstruindo os porquês de sua existência, iremos nos deparar com um outro sentimento muito mais impactante que a própria culpa. Aliás, o responsável por você senti-la.

Vamos fazer um exercício rápido: imagine-se em uma tarde de quarta-feira; você não está de férias, nem de folga. É um dia de trabalho normal, mas você escolhe se sentar ao sofá para simplesmente não fazer nada. Alguém te liga e te pergunta o que você está fazendo. Como você iria se sentir?

Veja que, a simples ideia de não fazer nada durante o seu horário de expediente já pode ter te causado aflição. O telefonema fez você se sentir culpado. Mas por que a gente se sente culpado por não fazer nada, mesmo sabendo que o que esperam de nós vai ser entregue?

A resposta está na vergonha.

Ela é a prima tóxica da culpa, mas nos beneficiou ao longo da nossa transformação genética.

Ambas, a vergonha e a culpa, são estímulos essenciais para nossa sobrevivência, nos favorecendo dentro da seleção natural. Elas são projetadas para evitarmos atos que prejudiquem as pessoas ao nosso redor, fazendo com que nos comportemos melhor no futuro, nos estimulando a pensar duas vezes antes de agir.

O sistema de culpa é projetado para detectar imposição de possíveis danos, pará-los e tomar medidas corretivas. A vergonha nos alerta quando agimos de uma maneira que pode fazer com que o outro nos desvalorize, e não mais nos apoie.

A culpa é um sentimento que desperta uma percepção sobre ter um comportamento que esteja coerente com nossa consciência. Já a vergonha é o medo que temos do julgamento social.

A culpa e a vergonha compartilham algumas redes neurais nas áreas frontal e temporal do cérebro, mas os padrões de suas atuações são diferentes. Enquanto a culpa surge no conflito entre o pensamento e o comportamento, conhecido como dissonância cognitiva, a vergonha é desencadeada quando pensamos que prejudicamos nossa reputação.

O medo de não fazer nada surge do fato de termos uma alta preocupação com o que irão achar de nós, não necessariamente sobre a dissonância cognitiva. Ou seja, você não se sente culpado por não fazer nada, você se sente envergonhado, e a vergonha te fazer sentir a culpa.

Seria como se fazer nada fosse uma ameaça à nossa própria existência. Exagero? Então pense em um cenário onde você está desempregado e vai a uma festa. Quando alguém te pergunta “o que você faz”? Como você reagiria?

Cientistas da Ludwing Maximilian University, na Alemanha, através de exames de imagens feitas com a ajuda de FMRI, descobriram que a vergonha desencadeia uma alta atividade na parte direita do cérebro, mas não na amígdala. Já no estado de culpa havia atividade na amígdala e nos lobos frontais, mas menos atividade neural em ambos os hemisférios cerebrais. Conclui-se com isto que, a vergonha, com seus amplos fatores culturais e sociais, é uma emoção muito mais complexa. Enquanto a culpa está ligada aos padrões culturais aprendidos por um indivíduo.

Portanto, tratar a culpa se torna muito mais simples do que tratar a vergonha.

O estímulo maior é realmente o medo, no entanto como a culpa foca nas ações, temos um senso maior de gerenciamento ao retificar nossos erros e aliviarmos nossos sentimentos de culpa. Este senso de gerenciamento faz total diferença na química neuronal.

Mas o que fazer com estas informações na prática?

A gente deve pensar em o que podemos gerenciar e o que devemos influenciar.

Para o cenário de culpa x vergonha, já sabemos que a culpa é gerenciável através da ampliação da nossa consciência sobre nossos atos, quando escolhemos não fazer nada, podemos refletir sobre os benefícios disto, e sobre os riscos reais, nos dando um conforto sobre a escolha. Já sobre a vergonha, só nos resta influenciar. A gente não controla o que o outro pensa da gente, nem o que sentimos sobre isto, mas podemos influenciar nossa reação ao fato, o que a neurocientista Tara Swart chama de “emoções inteligentes” em seu livro Neuroscience for leadership.

Algo só se torna fácil quando é socialmente aceitável, por isso devemos, enquanto sociedade, normalizar o “fazer nada”. Desta forma, quando este comportamento virar commodity, não teremos vergonha de tomarmos atitudes que nos farão melhores.

Da próxima vez que não conseguir escolher descansar e buscar estar ocupado, entenda se isto é culpa por estar deixando a bola cair ou apenas vergonha do que irão achar de você caso descubram que resolveu não se ocupar.

Vergonha devemos sentir de escolher fazer algo que não nos faz bem.

Gravei um podcast sobre o tema com mais informações sobre como gerenciar a culpa e a vergonha.

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Colunista

Colunista Wesley Barbosa

Wesley Barbosa

Wesley Barbosa

Saiu da periferia de Maceió e se tornou executivo do Facebook no Vale do Silício e Sócio da XP Investimentos. É o fundador da Become, empresa de educação executiva e corporativa. É professor de Neurociências, com aulas ministradas na quarta maior universidade do mundo, UC Berkeley, e Singularity University, ambas na Califórnia. Foi o executivo responsável por trazer o Baidu (o Google chinês) para a América Latina. Também liderou startups chinesas de games sociais, como o Colheita Feliz, e o idealizador da ONG chancelada pela ONU e acelerada por Stanford, Ajude o Pequeno.

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