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Carreira

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Platô de carreira: como superar a estagnação profissional

Em tempos de crise econômica e precarização do trabalho, compreensão e planejamento da carreira são ainda mais urgentes

Colunista Davi Lago e Augusto Jr

Davi Lago e Augusto Jr

10 de Janeiro

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Artigo Platô de carreira: como superar a estagnação profissional

Independentemente da idade ou área de atuação, há um estágio profissional incontornável na trajetória das pessoas: o platô de carreira. Este momento é caracterizado pela estabilidade na produção de valor e estagnação do aprendizado. É um momento decisivo, pois a carreira alcança a passividade que, dependendo dos objetivos profissionais, pode ser confortável ou frustrante.

Nosso objetivo aqui é apresentar as fases essenciais de toda carreira profissional até a chegada do platô, e as opções neste momento determinante da vida. Em tempos de crise econômica e precarização do trabalho, compreensão e planejamento da carreira são ainda mais urgentes.

A carreira profissional é compreendida como a caminhada mais ampla do sujeito no mundo do trabalho. Assim, a noção de carreira é mais ampla que a de emprego, empreendimento ou qualquer modalidade de trabalho pontual. A carreira profissional é construída com a trajetória global da pessoa em determinada área de atuação, o que inclui aspectos diversos como estudo, preparação, experiências como aprendiz. É comum, aliás, o trânsito por diversos empregos na construção de uma carreira.

Também vale destacar que existem polímatas, pessoas que desenvolvem mais de uma carreira simultaneamente, caso do brasileiro Amyr Klink: como navegador, foi a primeira pessoa na história a atravessar o Oceano Atlântico a remo em 1984; como escritor, é autor de best-sellers como Cem Dias Entre o Céu e o Mar e vencedor do Prêmio Jabuti. Contudo, não existem atalhos, pois as fases da carreira são as mesmas para todas aquelas construídas pelos polímatas. Portanto, é fundamental conhecer quais são as fases da carreira profissional.

Fase 1: adaptação

Essa fase é simbolizada por situações como, por exemplo, o início do negócio próprio, a chegada na empresa, a mudança de área, o início de um novo projeto, a estruturação de uma equipe. É um período cheio de novidades, perguntas e insights, de mapeamento do território, com uma curva de aprendizagem muito alta e, normalmente, caracterizada por alto nível de engajamento. É crucial ao profissional ser curioso e entender quais são os desafios estratégicos, as metas da organização no longo prazo.

O estudo Creating the Office of Strategy Management, publicado pela Harvard Business School, relata que 95% dos colaboradores não sabem ou não entendem a estratégia de sua empresa. Os profissionais em fase de adaptação mais valorizados são aqueles capazes de compreender o nível tático (como minha área contribui para a meta estratégica?) e operacional (o que esperam de mim nesse ano?) de suas organizações.

Fase 2: produção de valor

Quem supera a adaptação avança para a segunda fase, a produção de valor. É claro que, em todos os momentos, o profissional está gerando algum valor para a empresa. Entretanto, colaboradores em ascensão geram um valor positivo desproporcional em sua área. São aqueles que já compreenderam objetivos, rumos e cultura organizacional, recebem excelentes avaliações e feedbacks porque entregam não apenas o esperado dentro do prazo, mas executam suas funções com excelência.

A geração de valor está relacionada com a superação da mediocridade, ou seja, do hábito de entregar tarefas na média necessária. Profissionais diferenciados interagem positivamente com outros setores, são prestativos, disponíveis e impulsionam os objetivos da corporação. Os mesmos princípios são aplicados aos trabalhadores autônomos ou empreendedores, que precisam rentabilizar suas atividades para que o empreendimento avance.

Fase 3: escalada da influência

À medida que o profissional gera valor à organização, ocorre o crescimento de sua influência. Outros colaboradores passam a pedir ajuda e conselhos. O profissional em ascensão amplia suas possibilidades e exerce uma liderança 360º, seja em postos formais ou informais. A curva de aprendizado continua crescendo, assim como a geração de valor.

Surgem, todavia, novos desafios, como a dispersão dos objetivos prioritários, a sobrecarga com atividades desnecessárias, rivalidades corporativas e outros obstáculos relacionais. Aqueles que trabalham no próprio negócio vivenciam a franca expansão de suas atividades, caso da ampliação da rede de distribuição de um produto ou da adesão de anjos-investidores por uma startup.

Fase 4: platô

Esses ciclos são vivenciados em ritmos e modos diferentes para cada pessoa, em cada contexto: alguns avançam rápido, outros, vagarosamente. Contudo, é aqui que surge a quarta e decisiva fase, o platô. De origem francesa, o termo pode ser compreendido como sinônimo de planalto de uma área geográfica, ou seja, uma superfície plana e elevada. Na escalada profissional, é o ponto prolongado de estagnação: o profissional não consegue progredir, não aumenta a produção de valor, não tem novos aprendizados e desafios.

As causas do platô são variadas, podendo estar relacionadas a fatores externos, como limitações da equipe, organização ou mercado como um todo; e fatores internos como as limitações do próprio profissional – defasagem das habilidades, planos de carreira mal elaborados, falta de posicionamento, incapacidade de criar laços relacionais. Esse momento é, ao mesmo tempo, natural e crucial: natural, pois qualquer atividade profissional está emoldurada, em última instância, pelos limites econômicos inerentes do mercado; crucial porque exige uma decisão, acomodar ou reinventar.

A acomodação não é necessariamente negativa, uma vez que o profissional pode se sentir confortável com a posição alcançada. Neste caso, o platô é sinônimo de estabilidade e realização. Mas o platô pode ser indesejável por ser alheio aos objetivos pretendidos inicialmente, ou simplesmente não oferecer desafios, aprendizados ou satisfação ao profissional.

É possível traçar um paralelo com a teoria flow do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, PhD pela Universidade de Chicago, que diz respeito ao estado mental de ampla concentração em uma tarefa prazerosa, criativa e útil. Aplicado ao tema, compreendemos que a estagnação começa quando a pessoa constata que sua competência é alta, mas os desafios se tornaram pequenos. Esse relaxamento cede ao tédio e pode chegar à apatia, pois se perde o significado do trabalho. Sinais comuns são desempenho inferior, declínio do senso de humor, irritabilidade, depressão, ansiedade e frustração.

Por outro lado, existe a possibilidade de reinvenção, a reavaliação da carreira perante valores e objetivos mais amplos de vida. Os caminhos para a reinvenção são múltiplos, mas podemos destacar cinco dele:

  • Considerar seus diferenciais competitivos e migrar a trajetória profissional para uma área mais apropriada às suas capacidades e momento de vida. Há muitos casos de profissionais certos que estão nos locais errados. É vital ter consciência de suas competências (expertise acumulada e conhecimentos mobilizados) e habilidades (capacidades de execução);

  • Realizar uma ampla remodelagem do seu perfil e arcabouço profissional, atualizando conhecimentos, ampliando a rede de contatos, aprimorando habilidades e buscando mentores e conselheiros mais qualificados, de maneira a vislumbrar novos horizontes.

  • Iniciar uma ou mais carreiras paralelas. A estabilidade alcançada em determinada carreira pode ser o esteio para um novo empreendimento profissional.

  • Reiniciar a carreira. Muitos profissionais, especialmente os mais jovens, podem perceber inúmeras lacunas nas fases de formação e adaptação, e é possível reciclar a própria carreira, voltando aos estágios iniciais.

  • Romper radicalmente a trajetória e iniciar uma nova carreira, procedimento que pode ser precedido por um período longo de reflexão, que pode incluir um período sabático de desaceleração e revisão de vida.

O platô de carreira é incontornável e exige uma decisão do profissional. Vale ressaltar: ainda que a decisão seja inconsciente, ela é inescapável. Na prática, os profissionais que atingem o platô seguem um dos dois caminhos: permanecem estabilizados na situação (acomodação) ou buscam novos caminhos profissionais (reinvenção).

Insights para a carreira

Diante da compreensão dos ciclos essenciais da carreira profissional até o platô, oferecemos alguns apontamentos práticos:

1. Avalie seu momento atual: considere seriamente quais são seus objetivos profissionais, suas estratégias e o que já alcançou. Desse modo, é possível, ampliar sua própria perspectiva. Considere seus aprendizados, tarefas, funções e responsabilidades. O simples ato de avaliar o momento é importante para renovar suas energias

2. Considere a possibilidade de mudar de setor, empresa, empreendimento, segmento profissional: o próprio termo carreira é originado do latim “caminho para os carros; caminho”. Carreira é exatamente a longa caminhada. Portanto, avalie quais rumos novos você pode tomar. Essa reflexão deve ser feita com calma, avaliando os impactos sobre sua vida financeira, familiar, relacional, e assim por diante. Não tome essa decisão depois de um dia cansativo. Tire um tempo de descanso, reflita, converse com amigos e, então, considere as mudanças. Muito cuidado para não sair de um platô e entrar em outro.

3. Retome o controle de sua carreira: não terceirize sua carreira, assuma a responsabilidade. Compreenda as possibilidades práticas, mensure prós e contras, e tome decisões. Como diziam os romanos, “se não houver vento, reme”.

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Davi Lago e Augusto Jr

Davi Lago e Augusto Jr

Davi Lago é professor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP e autor do best-seller em produtividade "Formigas" (Editora MC). Augusto Jr é diretor executivo do Instituto Anga e professor convidado da Fundação Dom Cabral. 

Eles escrevem mensalmente para a coluna Perspectivas de carreira.

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