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Diversidade

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Empreendedorismo feminino em pauta

O que as mulheres que estão à frente de empresas e de iniciativas de fomento falam sobre o tema no Dia do Empreendedorismo Feminino

Maria Clara Lopes

19 de Novembro

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Artigo Empreendedorismo feminino em pauta

Atualmente, segundo pesquisa do Sebrae, temos no País cerca de 30 milhões de empreendedoras, e as mulheres têm participação de 34% nos negócios do Brasil. Um volume que, de certa forma, nos permite considerar que este é um país de mulheres empreendedoras. E que, por outro lado, não cria políticas públicas e oportunidades consistentes para os negócios criados por elas avançarem.

Aproveitando que no dia 19 novembro foi celebrado o Dia do Empreendedorismo Feminino, HSM Management reuniu números e ouviu diferentes perspectivas de mulheres que estão à frente de negócios e de redes de apoio à empreendedora brasileira sobre conquistas, desafios, aprendizados e como avançar nessa pauta.

O cenário do empreendedorismo feminino no Brasil.

Segundo o estudo Mulheres Empreendedoras e seus Negócios 2022, realizado pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) em conjunto com o Instituto Locomotiva, a motivação para uma mulher abrir um negócio varia. Se a falta de emprego (24%) ou falta de opção (13%) ainda são dois dos principais motivos para uma mulher abrir uma empresa, o estudo mostra que o empreendedorismo é uma alternativa de vida. A independência é o que atrai 38% das entrevistadas, 34% veem o empreendedorismo como uma forma de crescer e ter mais oportunidades, e 35% dizem que empreender sempre foi um sonho.

Porém não se engane: ainda há muitos obstáculos a serem superados. Segundo o estudo do IRME, a receita das empresas de 41% das empreendedoras não é suficiente para pagar as despesas do negócio, enquanto para outras 35% o faturamento é suficiente apenas para pagar as despesas; apenas 11% afirmam que conseguem poupar parte dos valores recebidos.

Elas também têm mais dificuldade de acesso a recursos financeiros, pagando taxas de juros maiores em comparação aos empreendedores homens (34,6% versus 31,1% ao ano), apesar de apresentarem taxas de inadimplência menores (3,7% versus 4,2%), como informa pesquisa do Sebrae realizada em 2019.

Diante disso, o que elas, as empreendedoras, têm a dizer?

Amanda Graciano, Fisher Venture Builder

Sócia e head de corporate relations da Fisher Venture Builder, Graciano destacou alguns números importantes sobre o cenário do empreendedorismo feminino no evento Pulse 2022, promovido pela Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje), e seu potencial impacto na economia global.

“De acordo com um dado da ONU {Organizações das Nações Unidas}, a igualdade de gênero poderia acrescentar US$ 28 trilhões no PIB global até 2025 e contribuir para erradicar a pobreza no mundo inteiro. Além disso, uma maior participação das mulheres no mercado de trabalho em cargos diretivos, ou seja, cargos que permitem ao longo do tempo acumular patrimônio, poderia injetar no PIB global US$ 12 trilhões, de acordo com a McKinsey. No Brasil, isso seria um incremento de quase US$ 500 bilhões, o equivalente à riqueza total gerada anualmente pela região Nordeste do País”, destacou ela.

Ela também destacou o significado, na prática, dos números expressos nesses relatórios. “No último relatório divulgado de 2018 {do Fórum Econômico Mundial}, apenas 58% dos países no mundo tinham conseguido preencher essa lacuna de gênero. Lacuna são seres humanos {que não} são tratados iguais independente da forma que parecem. É tão fácil e tão simples quanto isso”. Uma lacuna ainda bastante grande no Brasil, segundo ela: “No ranking global, que considera pouco mais de 190 países, apesar do Brasil ser a nona economia do mundo, quando considera oportunidades em gênero – principalmente para as mulheres –, ocupamos a 92ª posição.

Citando dados divulgados há cerca de cinco anos pela Forbes americana, Graciano traz uma reflexão sobre o quanto de negócios inovadores e até disruptivos podem estar deixando de nascer por conta da visão enviesada dos investidores no que tange à equidade de gênero. “Se o Elon Musk fosse a Ellen Musk, não teria captado investimento para nenhum dos seus negócios. Se fosse uma mulher, dificilmente o mercado acreditaria nela; o outro lado também precisa ter essa paridade, com mulheres investindo”. Outro exemplo: “os negócios do Larry Page, do Google, se fosse mulher, também não teriam sido investidos, porque 5% do dinheiro dado pelos governos são direcionados a empreendimentos de mulheres. De novo, há pouca representatividade feminina também na política, ocorrendo, então, esses vieses, em que várias leis e políticas desconsiderem a realidade da mulher. Quando vamos para o mundo dos negócios, estamos nesse mesmo lugar”, ressaltou.

Dado o impacto na economia – “e economia não é só dinheiro, mas de forma bem simples é tudo o que rege a relação entre a sociedade (as posses, os recursos etc.)”, como lembra Graciano – é muito relevante incluir o empreendedorismo feminino na agenda das políticas públicas. “A mulher tem um impacto no incremento da economia muito grande, porque estão se tornando cada vez mais chefes de família. Mais do que ela movimenta, tem o fato de quanto de oportunidade estamos deixando de criar e de valor que está sendo criado no mercado justamente porque em algum momento decidiram excluir as mulheres do cenário. E acontece muita coisa legal quando temos a mulher empreendendo”, avalia ela.

Dani Junco, B2Mamy

A fundadora e CEO da B2Mamy também ressalta a importância do empreendedorismo feminino na economia. Em entrevista a HSM Management, Dani Junco destacou a ampliação da participação das mulheres na abertura de novos negócios – “mais da metade dos CNPJs que são abertos no país, hoje, já é uma mulher que abre; então a gente já empreende mais com os meninos, né?” – assim como o avanço da participação delas na renda das famílias – “em 48% das casas brasileiras hoje, é a mulher que tem um investimento maior, o dinheiro que entra maior já é ação das mulheres”.

No entanto, segundo ela, esse grande volume ainda não se traduz em negócios que produzam o impacto na economia abordados por Amanda Graciano ( que também é constatado pelos números apontados no estudo do IRME). “A grande maioria {das mulheres} não é empreendedora porque forma empresas, gera empregos e movimenta a economia; é aquele ‘corre’ de vender o almoço para comprar a janta”, diz ela. Em face dessa realidade, Junco questiona a falta de apoio de políticas públicas e das empresas privadas no acesso a recursos e ao fomento de iniciativas criadas por mulheres em um momento em que o panorama econômico mundial está muito ruim, “com a classe B derretida e a classe C aumentando”. “Você pedir para todas as mulheres empreenderem sem recurso de tempo e dinheiro, é quase um crime”.

Para que as mulheres possam deixar de ser uma força do “empreendedorismo de necessidade” e atuar mais fortemente em iniciativas que nasçam de oportunidades de negócio e que gerem maior impacto na economia, Junco acredita que é preciso fortalecer três pilares: o da educação – incluindo educação de base, financeira e tecnológica; o da construção de redes de relacionamento e comunidades; e o do acesso a investimentos. O último é ainda mais fundamental, uma vez que a escassez de recursos reduz proporcionalmente a capacidade de erro e aprendizado no negócio, processo fundamental na formação das startups. “Como é que você empreende? Na escassez nunca pode ter ‘oportunidade’”, reforça ela.

Maria Brasil, Conaje

“Além de ter de gerir o seu negócio, ainda é imputada à mulher a tarefa de chegar em casa no final do dia e fazer todas as outras coisas. Como se a obrigação das tarefas domésticas fosse exclusiva da mulher. A não divisão dessas atividades acaba gerando uma sobrecarga imensa, o que acaba sendo um déficit para que consiga avançar nos negócios dela”, ressaltou. O impacto da economia do cuidado no empreendedorismo feminino foi um dos desafios destacados pela presidente da Conaje (Confederação Nacional de Jovens Empresários), Maria Brasil – que também representa o País na aliança de jovens empreendedores do G20 e na Federación Iberoamericana de Jóvenes Empresarios – durante o Pulse 2022. Em geral, essa “segunda jornada” não está presente na vida dos empreendedores homens.

Há outro viés – esse externo – que também pressiona a evolução do empreendedorismo feminino: o comportamento dos investidores durante as rodadas de pitches, verificado por pesquisa da Harvard Business School e apresentada por uma painelista no último encontro de jovens empreendedores do G20 na Alemanha, e que colabora para a falta de acesso a recursos pelas mulheres.

“Sabemos que só um percentual muito pequeno de investimento vai para os negócios femininos. Percebeu-se nessa pesquisa que, normalmente, quando um homem faz um pitch os investidores questionam mais sobre questões de expansão, de abertura de negócio, com perguntas como: ‘Quanto pretende crescer em cinco anos?’; ‘O que pretende fazer para escalar o seu negócio?’. Já as perguntas feitas para as mulheres são mais do tipo: ‘Como você acredita que vai conseguir financiar o seu negócio?’; ‘Como você acredita que sua ideia tenha realmente viabilidade?’. Como não existe representatividade de mulheres em cargos de liderança, as que tentam chegar lá são muito questionadas. Isso torna a jornada muito mais desafiadora para elas.”

Ana Claudia Cotait, CMEC Mulher

Para a presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC Mulher), ligado às associações comerciais de todo o País, as mulheres começam a ocupar seu espaço e vê que o empreendedorismo feminino está crescendo em todo o mundo. “As mulheres estão assumindo o lugar merecido de onde elas nunca deveriam ter sido excluídas”, disse, durante o Pulse 2022. Para ela, esse crescimento é “fruto do avanço na garantia dos direitos femininos no caminho da equidade entre homens e mulheres”, porém ainda há barreiras. “Representamos 52% da população brasileira, mas as mulheres em posição de destaque são apenas 13%”, afirmou.

Para ela, outro desafio é a preparação das mulheres para a gestão, principalmente após o alto crescimento de abertura de MEIs durante a pandemia “Hoje estamos {sic} com mais de 3,9 milhões de MEIs na pandemia, grande parte de mulheres. O que me preocupa muito é a parte de gestão. A mulher empreende e se reinventa, é rápida, contacta a vizinhança, mas, além da formalização ser importante para ela conseguir fornecer para grandes empresas, para a prefeitura, a mulher entrega a gestão administrativo-financeira do negócio para o marido, ou para o cunhado, ou para o filho, ou para o pai; e eles acabam tirando dela a liberdade financeira. Ela precisa aprender gestão”.

Para avançar nesse aspecto e também em termos de fomento, o CMEC – além da parceria já existente com o Sicredi – vai lançar, no próximo dia 22 de novembro, de um novo programa em parceria com o Bradesco, o Liberdade para Empreender. Organizado em temporadas que incluem programas de mentoria, capacitação, educação financeira, crédito e negociação de dívidas, diretamente com as mulheres e envolvendo as gerentes do Bradesco. A expectativa para a primeira edição é de ter 100 participantes selecionadas.

Mônica Hauck, Sólides

A CEO da HRtech Sólides é uma das empreendedoras cujo negócio nasceu de oportunidade e não da necessidade. Com uma jornada de cerca de 20 anos, Hauck começou criando o que hoje chamamos de agritech – “na época, era programa para fazendeiro”, lembra ela – ao notar que muitos dos fazendeiros ainda usavam ferramentas de controle “de 100 anos atrás”. “Eu vi uma oportunidade, a gente desenhou o software e colocamos no mercado”, conta.

A passagem para o setor de RH foi semelhante. “Eu enxerguei uma oportunidade absurda, porque a rotatividade no Brasil é muito alta e eu sabia que se eu desenvolvesse uma tecnologia certa, ia reduzir a rotatividade”.

Apesar de sua formação original não ter nada a ver com gestão – ela estudou História – Hauck tem um dos fatores que Dani Junco destacou como essenciais para alavancar o empreendedorismo de oportunidade: a educação, tanto de base quanto da tecnologia. E ao longo da jornada foi ampliando os outros dois: rede – hoje ela atua como mentora em diversos programas de empreendedorismo – e acesso a investimentos. Mas no começo, a torneira do dinheiro estava fechada. “Quando eu comecei, não tinha acesso a capital; não tinha pra ninguém, não era nem muito pra homens e nem pra mulheres”.

Hauck tem colocado mais foco nas oportunidades quando é chamada a falar sobre a vida da mulher empreendedora. “Hoje eu noto uma mudança de mindset, um crescimento, um aumento de participação {da mulher}. Eu sou muito otimista com relação a isso”, diz. Ela lista, entre os motivos, que mulheres estudam mais do que os homens, têm aberto mais empresas e vê que algumas das dificuldades dão origem a “vantagens competitivas”. “Exatamente por eu ter sido forjada num ambiente de escassez, num ambiente onde não tinha tanto acesso a capital, não tinha uma rede de apoio, tudo isso me forjou e tudo isso me trouxe até aqui. E eu sou muito grata a tudo isso”.

Na visão de Hauck, as iniciativas que suportam e ajudam o empreendedorismo feminino são cada vez mais importantes, e reserva parte de ser tempo para o “give back”, atuando como mentora da Endeavor e de outras iniciativas do ecossistema de empreendedorismo feminino, ao lado de nomes como Luisa Trajano e Sonia Reis. “Ao longo do tempo, fui percebendo que eu tinha um papel muito maior do que só entregar o resultado da empresa, porque cada vez mais meninas batiam na minha porta. Eu não tinha consciência desse papel”.

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Autoria

Maria Clara Lopes

Maria Clara Lopes é colaboradora da revista HSM Management.

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