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Como migrar de organizações-máquinas para organizações-ecossistemas

Para que as organizações se tornem mais interdependentes, elas devem se estruturar como comunidades. Essa proposta está baseada em duas hipóteses: a hipótese de Dunbar e as redes de pequeno mundo

Marcelle Xavier e Marina Galvão

06 de Abril

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Artigo Como migrar de organizações-máquinas para organizações-ecossistemas

As organizações foram desenhadas como máquinas, com o objetivo de gerar estabilidade e produtividade. Mas essa estrutura previsível e controlável é artificial e, por isso, nossas organizações estão destruindo as pessoas e a si mesmas. Muitas delas já entenderam que precisam mudar: reduzir hierarquias; aumentar a autodireção; instalar sistemas de autogestão; facilitar a fluidez do aprendizado e a colaboração; criar relações significativas com seus clientes. Essas são algumas mudanças que o mundo corporativo já vem tentando implementar nos últimos anos.

Para nós, porém, o maior desafio das organizações hoje é que se tornem cada vez mais parecidas com ecossistemas – responsivos, adaptativos, evolutivos. E esse é, invarialmente, um desafio de relacionamentos.

O leitor pode observar que, na economia das plataformas digitais e com a priorização das cadeias de fornecimento, as empresas estão cada vez mais interconectadas. Faz sentido. No entanto, a configuração dessas conexões parece reduzir, e não aumentar, nossa inteligência. Será que a estrutura das empresas, com múltiplas conexões de baixo vínculo, é a melhor forma de nos organizarmos? Nossa hipótese é que não.

Para que as organizações se tornem mais interdependentes, elas devem se estruturar como comunidades. Essa proposta está baseada em duas hipó­teses. A primeira é biológica: a hipótese de Dunbar sugere que nosso cérebro tem capacidade para cultivar relações (pessoais ou profissionais) com no máximo 150 pessoas. O problema é que, na atualidade, estamos conectados a um número muito maior de pessoas, possivelmente muito maior do que nosso cérebro consegue gerenciar.

Chegamos então à segunda hipótese: as redes de pequeno mundo, que se baseiam em pequenos grupos com amplas conexões ligadas entre si. É a estrutura dessas redes que vai configurar conexões mais poderosas e uma comunidade mais inteligente.

Hipótese biológica: o número de Dunbar

Ao comparar o tamanho do cérebro dos nossos primatas com o tamanho do seu grupo social, o antropólogo britânico Robin Dunbar identificou o “número mágico” de relações que os seres humanos conseguem cultivar.

Sua hipótese parte do princípio que quanto maior o número de pessoas no bando, mais complexa a política que possibilita essa organização. Como o neocórtex é a área do cérebro responsável pelo planejamento executivo, memória e linguagem, quanto maior o bando, maior o neocórtex. O nosso parece dar conta de não mais que 150 conexões.

Coincidentemente ou não, esse padrão pode ser observado em muitas organizações sociais, como tribos de caçadores coletores que tinham em média 150 membros, aldeias agrícolas neolíticas e, mais recentemente, no número de pessoas em unidades militares.

No entanto, estamos inseridos em redes com um número cada vez maior de elos fracos, e, geneticamente o nosso cérebro ainda é o de um caçador coletor acostumado a se conectar de maneira mais próxima e restrita.

Sim, pois, ao analisarmos o tempo do Homo sapiens no planeta Terra, percebemos que em praticamente 99% da história da nossa evolução nós fomos caçadores coletores. Ou seja, nosso cérebro é tribal e nossa organização social é global, e esse novo modo de organização exige de nós uma política mais complexa que possibilite a nossa conexão.

Hipótese antropológica: redes de pequeno mundo

Os cientistas sociais parecem ter um caminho para facilitar a nossa conexão nesses tempos em que estamos conectados com muito mais de 150 pessoas: a organização de redes de pequeno mundo.

A ciência das redes parte do princípio que para entender o comportamento de grupos, não deveríamos olhar para as os indivíduos, mas sim, para suas conexões - pois é a qualidade dessas conexões que vai indicar se uma multidão se torna mais ou menos inteligente.

O termo “redes de pequeno mundo” foi desenvolvido por Stanley Milgram após estudar uma diversidade de campos científicos e encontrar uma configuração de rede ótima: que se organiza através de pequenos grupos com ligações profundas, conectados entre si.

Estudos apontam que essa configuração - que se assemelha a tribos -, aumenta a criatividade, a inteligência e a capacidade de colaboração do grupo. Partindo dessa lógica, as organizações deveriam se parecer cada vez mais com comunidades. Mas não basta se organizar no formato de tribos (squads) para criar uma rede de pequeno mundo, é preciso facilitar a criação de relações significativas - vínculos profundos e pontes entre os grupos, que criam unidade sem uniformidade e diversidade sem divisão.

Leia mais: Relações no centro dos desafios organizacionais

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Autoria

Marcelle Xavier e Marina Galvão

Marcelle Xavier desenha experiências que permitem que pessoas e relacionamentos se desenvolvam. Fundadora do Instituto Amuta, atua como designer de conexões e facilitadora do amor nas organizações. Marina Galvão é facilitadora e consultora. É designer de aprendizagem no Instituto Amuta e desde 2015 organiza e facilita o hub para aprendizagem e prática da Teoria U.

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