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DIA DA MENTIRA

5 min de leitura

A cultura da mentira e a gestão de empresas

O hábito de dizer inverdades é particularmente forte no meio executivo. Pesquisas e especialistas nos ajudam a entendê-lo e a ficar alertas

Florencia Lafuente, com a colaboração de Adriana Salles Gomes

01 de Abril

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Artigo A cultura da mentira e a gestão de empresas

Nos Estados Unidos, o executivo Scott Thompson passou pelo cargo de CEO do Yahoo como uma tempestade de verão: ficou quatro meses no posto. E tudo isso porque “embelezou” um pouco seu currículo. Ele afirmou que era graduado em contabilidade e ciências da computação pelo Stonehill College, de Boston, Massachusetts (EUA), mas só o primeiro diploma existia.

No Brasil, a empreendedora Bell Pesce, “a menina do Vale, foi best-seller e influencer mais ou menos como uma tempestade de verão também: vendeu 170 mil cópias de seu livro (depois de ter 3 milhões de dowloads) e 1,7 milhão de seguidores no Facebook, além de uma agenda lotada de palestras lotada. Hoje, seus treinamentos de serendipidade têm menos demanda e os seguidores, embora ainda em quantidade significativa, caíram a um terça – 546 mil (e 183 mil no LinkedIn). E tudo isso porque ela também “embelezou” um pouco seu currículo. Ela afirmou que tinha cinco diplomas no MIT – Massachusetts Institute of Technology, quando eram “apenas” dois (o resto eram minors), e que cofundou a fintech Lemon Wallet no Vale do Silício (quando, na verdade, começou a trabalhar lá no ano seguinte à fundação).

Todos nós mentimos ou criamos fantasias em certa medida, mas, segundo dados do recente estudo “Academic Dishonesty in Graduate Business Programs: Prevalence, Causes, and Proposed Action”, feito com 5.331 alunos de 32 cursos de pós-graduação dos Estados Unidos e Canadá, e publicado na Academy of Management Learning & Education, revelou que 56% dos que cursam mestrado em administração de empresas admitiram ter mentido, índice dez pontos percentuais superior ao encontrado entre os mestrandos trapaceiros de outras áreas do conhecimento.

Nariz comprido

Dan Ariely, autor de A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade e especialista da Duke University, passou anos estudando as motivações da mentira e da trapaça e nos ajuda a entendê-las: “A desonestidade tem natureza paradoxal: mentimos para nos beneficiarmos e, ainda assim, mantemos uma visão positiva de nós mesmos. Achamos que algumas armações são inofensivas e até necessárias. Por exemplo, se um estudante guardar Coca-Cola e dinheiro em sua república, o refrigerante tende a desaparecer muito antes que o dinheiro, pois os integrantes do grupo não gostam de ser vistos como ladrões, mas tudo bem ter sede”, compara Ariely para exemplificar nosso complexo parâmetro sobre as desonestidades permitidas e as proibidas.

Ariely sustenta que a maioria das pessoas está propensa a mentir porque, apesar de querer parecer honesta, gosta de desfrutar as pequenas vantagens advindas de mentirinhas que ressaltam qualidades e encobrem defeitos.

Liz Killik, consultora de organizações sobre getão de conflitos pessoais e autora do guia How to Resolve Interpersonal Conflicts in the Workplace (que pode ser baixado gratuitamente), relaciona três gatilhos principais da mentira num artigo para o blog da Harvard Business Review: (1) medo de aborrecer alguém ou de iniciar um conflito, (2) não querer expor as próprias inadequações (incompetência, falta de conhecimento, falta de agilidade etc.) e (3) obter benefícios – os currículos superlativos parecem ilustrar o último gatilho.

Pernas curtas

A verdade é que na era digital, mais cedo ou mais tarde, a verdade vem à tona –com o Google, os smartphones e as redes sociais, apagar o rastro de uma mentira anda cada vez mais difícil. Assim como surgiu uma série de serviços de checagem de fake news, a mídia e influencers ficaram mais vigilantes em relação aos currículos de quem faz sucesso – no caso de Bel Pesce, por exemplo, pessoas como o blogueiro Izzy Nobre e o influencer Felipe Neto fizeram soar o alarme.

Nos Estados Unidos, a mentira também é legalmente dificultada nas empresas, ao menos para companhias de capital aberto. Em 2002, a Lei Sarbanes-Oxley criou mecanismos para vigiar a conduta das empresas listadas na bolsa de valores. Com ela, CEOs e diretores financeiros são responsáveis legais pela divulgação de resultados fraudulentos de suas empresas (como ocorreu com Enron e WorldCom): se mentirem, podem ser condenados a até dez anos de prisão. Existem, para o caso dos currículos, empresas de checagem de referência, como a Checkster – aliás, os levantamentos mostram que de 36% a 78% dos candidatos a vagas nas empresas incluem alguma mentirinha no CV. No Brasil, está em tramitação na Câmara dos Deputados um projeto de lei sobre fake news – a expectativa é que seja votado ainda em abril –, mas ainda não se sabe se será aplicável a mentiras de LinkedIn, por exemplo.

De acordo com Ariely, há algumas estratégias simples que podem ajudar os executivos a não cair em tentação, tais como criar códigos de honra, gerar mais mecanismos de supervisão, trabalhar com os incentivos adequados e aplicar os castigos corretos.

Liz Kislik fala sobre estratégias para os líderes lidarem com a cultura da mentira – para ela, o princípio-chave é considerar mentiras inadmissíveis – elas sempre causam algum mal, por mais que não pareça, seja ao negócio ou às pessoas. Conforme ela, mentiras devem ser documentadas (ainda que privadamente), os mentirosos devem receber feedbacks e, se isso se repetir, a demissão é a solução. Enfim, todo líder precisa saber gerenciar mentiras para evitar que uma cultura de mentira se instale. Mas, segundo os levantamentos, chefes tendem a mentir mais do que os subordinados, ainda que sejam mentiras “leves”: 37% mentem uma vez por semana, ante 28% dos funcionários no primeiro nível hierárquico, conforme pesquisa Simply Hired.

O fato é que o Dia da Mentira, no meio executivo, não acontece só no 1º de abril. E levando em conta a necessidade cada vez maior de inovar, que muitas vezes requer quebrar regras, a mentira nos ambientes de negócios provavelmente provavelmente não acabará tão cedo.

Obs.: Este texto contém uma peça de 1º de abril, desculpe! O estudo “Academic Dishonesty in Graduate Business Programs: Prevalence, Causes, and Proposed Action” não é recente; foi realizado dez anos atrás, em 2012. Mas continua atualíssimo, não?

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Autoria

Florencia Lafuente, com a colaboração de Adriana Salles Gomes

Florencia Lafuente é colaboradora de HSM Management baseada em Buenos Aires, Argentina. Adriana Salles Gomes é cofundadora e diretora editorial de HSM Management.