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Posso matar o robô? E se ele for imortal?

O avanço das pesquisas torna necessário o debate sobre os limites éticos da relação entre humanos e máquinas

Colunista Luís Antônio Dib

Luís Antônio Dib

17 de Dezembro

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Artigo Posso matar o robô? E se ele for imortal?

Um primo mais novo do meu melhor amigo de infância tinha um robô de brinquedo. Nos anos 1980, um robô de brinquedo pouco fazia: acendia luzes, emitia sons estridentes, andava para frente e para trás com um controle remoto. E consumia pilhas. Consumia pilhas como se não houvesse amanhã.

Entrando na adolescência, eu e meu amigo não dávamos muita bola para o robô. Mas o seu priminho parecia vidrado naquilo. E sua mãe, tia Suzana, tinha que se desdobrar para comprar pilhas e aturar aquele trambolho sonoro e piscante pela casa.

Um dia o robô parou de funcionar. Nunca soubemos o que aconteceu. Nem por que tia Suzana não tentou consertá-lo. Ao contrário, ela parecia quase feliz com o destino do robô e tratou de consolar seu filho com jogos de tabuleiro e pacotes de figurinhas.

Até hoje não sei se tia Suzana quebrou o robô de propósito ou se apenas omitiu “socorro”. Qualquer que tenha sido seu ato, sem dúvida causou um tanto de sofrimento para seu filho, mas certamente não para o robô de brinquedo. Será que no futuro poderemos falar a mesma coisa?

Os avanços tecnológicos, especialmente no campo da inteligência artificial, estão chegando perto, segundo alguns cientistas, da criação de máquinas que poderão ser consideradas “vivas”. Sendo esse o caso, tia Suzana poderia simplesmente “matar" uma delas caso a estivesse incomodando?

Não se apresse em responder.

Ética na relação humano e IA

O professor da Northern Illinois University, David Gunkel, é um dos pioneiros no tema da ética aplicada às nossas relações com computadores, inteligências artificiais e robôs. Doutor em filosofia, Gunkel se dedica a pensar como nos relacionaremos com máquinas que sejam conscientes. Ele diz que, na ficção científica, o humano está sempre preocupado em se proteger das máquinas, mas nossa percepção em relação a elas foi se alterando com o passar do tempo. E isso é uma coisa boa, pois nos força a ter uma perspectiva diferente.

Para Gunkel, temos que começar a pensar sob a ótica dos robôs, considerando seus direitos e a questão de sua mortalidade ou mesmo sofrimento. Parece inevitável que a existência de tais tipos de máquinas em nosso mundo deixará de ser apenas ficção, então precisamos nos preparar respondendo a tais questionamentos o quanto antes.

Conexões emocionais

Bem, é fato que muitas pessoas já se relacionam com objetos inanimados com conexões bastante fortes. Tenho conhecidos que parecem sentir algo próximo ao amor por camisas queridas, cafeteiras ou seus telefones celulares. No Japão, monges budistas conduzem cerimônias fúnebres para cachorros robôs Aibo “mortos”, pois mesmo seres inanimados podem ser possuidores de almas.

E se nos voltarmos para os robôs projetados para fazerem a remoção de bombas, que, com seu eventual sacrifício, salvam as vidas de humanos? Já foram relatados diversos casos de soldados norte-americanos de unidades de eliminação de bombas que criaram forte ligação com seus robôs.

Os equipamentos recebem nomes humanos e até “dormem” próximos aos soldados dentro dos utilitários Humvees. Quando um desses robôs apresenta defeito, o soldado escreve para o responsável pela manutenção solicitando que o mesmo robô seja devolvido após o conserto. São considerados parte do “time” e, portanto, não seriam passíveis de substituição como um equipamento qualquer. E isto tudo sem que qualquer um desses robôs tenha aspecto humano, como os que povoam as histórias de ficção científica.

Mesmo máquinas com as inteligências artificiais de hoje, como a Siri, possuem características completamente diferentes dos seres humanos. Embora gerem sentimentos contraditórios quando soam como humanos.

Seria a “humanidade” das máquinas bem recebida por nós?

Para Anouk van Maris, pesquisadora em robótica no Bristol Robotics Laboratory, “a vantagem de robôs que se pareçam com seres humanos é que as pessoas se sentem mais confortáveis com sua proximidade. A maior desvantagem é que passamos a esperar que eles sejam capazes de fazer coisas humanas e, em geral, eles não podem.”

Aliás, faz sentido projetar robôs com aparência humana? Para muitos especialistas, isso não seria funcional. A menos, segundo eles, que sejam robôs destinados a fantasias eróticas.

Voltando ao nosso tema principal, quando hoje se fala da “morte” de um robô, trata-se apenas de uma metáfora, assim como quando o motor de seu carro para de funcionar. Mas talvez deixe de ser no futuro, uma vez que começa a ser considerada factível a criação de uma máquina que tenha sentimentos, empatia e capacidade de tomar decisões baseadas em valores morais.

Entretanto, a visão é que tal máquina estará “viva” em um estado mais disperso que o nosso, não restrita a um único dispositivo. Provavelmente estará “na nuvem” ou algum lugar similar onde sua memória poderá ser passada para outros dispositivos. Talvez um robô desses simplesmente não possa morrer. E possa estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Robôs com cérebro humano

Será que nós sentiríamos algo diferente se esse robô realmente possuísse um cérebro humano? Vários projetos lidam com essa hipótese como, por exemplo, o Human Brain Project ou os organoides na University of California.

Em 2019, neurocientistas mapearam todas as conexões entre todos os neurônios do cérebro de um animal, pela primeira vez. Era o cérebro de um verme, pouco sofisticado se comparado ao cérebro humano. A versão digital desse cérebro foi colocada em um robô e fez com que ele se movesse como o verme faria. O principal objetivo desse estudo é melhor compreender o funcionamento do cérebro humano. Fazer o mesmo para animais mais complexos, até chegar ao cérebro humano parece questão de tempo, só não se sabe quanto.

Seria possível, então, realmente replicar, em toda sua complexidade, o cérebro humano em um computador? E transferir sua consciência para algo de silício, criando uma entidade viva? Pesquisadores do tema, como o filósofo Daniel Dennett, são ainda um tanto céticos. Para ele, ter um mapa do cérebro humano seria o equivalente a ter um mapa completo do sistema telefônico de uma cidade, considerando que ele seria o suficiente para você entender todos os eventos ocorrendo em Londres ou Nova York.

Bem, se você chegou até aqui, talvez esteja agora decidindo se acredita que os robôs serão um dia feitos à nossa imagem e semelhança. E, talvez, queira se adiantar e já começar a correr para longe. Eu vou entender, mas prefiro ficar observando, curioso de saber onde isso tudo vai dar. Otimista, mas... — “Siri, ligar para tia Suzana”.

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Autoria

Colunista Luís Antônio Dib

Luís Antônio Dib

É professor do COPPEAD, consultor e palestrante. Mestre e doutor em administração, conta com certificações da Harvard Business School e criou e coordenou diversos cursos de pós-graduação, além de ministrar disciplinas nas áreas de julgamento e tomada de decisão, estratégia, negociação e internacionalização. No mais, Dib tem experiência em cargos executivos na Shell, Telefônica e TIM, e como consultor de alta gestão pela Booz-Allen.

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