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Ambiente inclusivo: de onde veio?

João Roncati

11 de Setembro

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Artigo Ambiente inclusivo: de onde veio?

No início do século XXI, passamos a compreender que a discussão sobre a inclusão poderia ser um diferencial competitivo fundamental. De onde surgiu esta necessidade e porque o esforço em estruturar um ambiente de diversidade?

Aparentemente a origem é diversa, mas acredito que três movimentos convergiram criando uma iniciativa em nossa sociedade de grande valor.

Em meados da década de 80 até a de 90, o Terceiro Setor viveu um grande florescimento no Brasil. Várias eram as pautas. E, uma delas, a busca da construção de espaços “inclusivos” na sociedade, e nas organizações, de um modo geral. A ideia era ampliar a capacidade de mobilidade, aceitação e de construção da dignidade e cidadania. 

Vimos a transformação em espaços públicos, vagas de garagens, criação de vagas de emprego e uma forte mudança de políticas públicas. Com todo este movimento, o “diferente”, o “defeituoso”, o “deficiente” ganharam novos substantivos, menos adjetivos e muito mais oportunidades. Beneficiou-se toda a sociedade por perceber direta ou indiretamente quanto o “diferente” pode ser igual, ou ainda melhor, como ao ser “diferente” transforma e amplia nossas próprias perspectivas. 

Com isto, muitos hábitos (alguns já bem arraigados) passaram a ser questionados. E, por força de lei ou por aumento da consciência dos indivíduos e das organizações, os espaços de inclusão foram progressivamente considerados e incorporados.

Quase simultaneamente, muitos estudos sobre o funcionamento do cérebro humano ganharam impulso com o aumento ao acesso de pesquisadores para o uso do TEP/TC (ou tomografia).  Foi possível ver o cérebro em funcionamento e o processo decisório se “desenhando” (numa grande síntese). 

Ainda há muita coisa a ser descoberta, mas foi possível compreender importantes elementos do nosso processo decisório. Para as mais simples escolhas, as mais intrincadas, foi possível com apoio da psicologia compreender o quanto está na base de nosso processo sináptico a construção de “rotinas”, com objetivo de acelerar nossas decisões. Isto facilita, economiza energia e libera o processamento cerebral para outras atividades. Na gênese de nossas rotinas, a pesquisa que fazemos aos nossos registros históricos à busca de referências e a formação dos pré-conceitos na tentativa de acelerar a decisão.

Multiplicaram-se estudos e informações sobre a necessidade de “think out the box”, achar novos caminhos para sinapse, compreender diferentes perspectivas. Enormes ressalvas ecoam ainda hoje sobre modelos mentais e dominância para um indivíduo ou grupo. Percebeu-se, ou lançaram-se elementos científicos sobre o alerta (que já existia) sobre o perigo de darmos ares absolutos para uma linha de pensamento sob o enorme risco de obsolescência ou simples incapacidade de enxergar mudanças de variáveis ou de todo um contexto. 

A história das organizações e nações está recheada de pessoas empreendedoras ou líderes que perderam sua capacidade de “enxergar” o cenário e, portanto, de mudança, e acabaram em grandes derrocadas, levando junto consigo pessoas, organizações e até nações.

Seguindo a cronologia da história e o desenvolvimento dos sistemas econômicos, assistimos um aumento significativo da competição e, portanto, crescente necessidade de diferenciação.

Neste contexto ganham eloquência em muitas indústrias e mercados, organizações e pessoas, que conseguiram destaque e diferenciação. Inovação surge com muita força e gera uma onda mundial de entender e cultivar, como forma de preservar e sobreviver.

Ao estudá-la, na expressão de pessoas altamente criativas e traduzida metodologicamente, surge no seu âmago, como prática fundamental, o cultivo do pensamento divergente. Esta nova disciplina chegou para estimular de forma organizada e focada, a opinião diferente, contrária, cultivada ou apoiada em perspectivas “diversas” que somadas, levariam à convergência (foco) à própria criatividade ao gerar valor perceptível e tangível: inovação.

Oras, o pensamento divergente é abundante no “diferente” e raro, em um grupo com profundos laços e enorme identidade. É possível afirmar que em muitas organizações, por décadas, cultivamos apenas o pensamento convergente ou até subserviente.

Assim, historicamente, passamos a ter uma convergência curiosa e muito produtiva: ao abrir os espaços de trabalho para inclusão, nos permitimos:

  •  Reduzir nossos padrões rígidos de identidade (de todos os tipos, estéticos inclusive) e;
  •  Flexibilizamos o formalismo e incentivamos o cultivo da “discordância” que busque testar a consistência de uma ideia ou a própria inovação (numa síntese simples, mas clara da expressão do pensamento divergente), buscando ampliar e flexibilizar modelos mentais e/ou estimular a inovação.

Nesta nossa contemporaneidade, criamos como nossos desafios organizacionais e pessoais o convívio com aquele que foi historicamente chamado de “diferente” e em ouvir e compreender opiniões e posicionamentos novamente “diferentes” e que víamos como discordância, oposição ou simplesmente inválidos. 

Fácil? Ao contrário. Exige esforço pleno, focado, vigilante e administrado. Por isto, não sobrevive se o cultivo estiver apenas na mobilização do lado “atitudinal”, mas sempre a partir da soma do desenvolvimento de competências e processos dedicados. 

Seguramente, não estamos diante de uma moda, mas de um contexto desenhado historicamente e cujo alcance e efeitos ultrapassam a esfera individual ou mesmo de uma organização. Os efeitos são da reorganização de referenciais do relacionamento humano, de espaços de execução e realização de valores.

Novamente: fácil? Não, mas entendo que necessário.

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Autoria

João Roncati

Diretor da People + Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano.

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