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Confiar é preciso. Ter confiança não é uma escolha, um princípio ou um valor, porque toda confiança resulta de um passado de experiências sobre o qual temos muito pouco controle.


produto_4365_capitalismo_conscienteBaseado em highlights do livro O executivo e o martelo: reflexões fora da caixa sobre ética nos negócios, de Clóvis de Barros Filho e Arthur Meucci (p. 150-151).

Saiba mais sobre o livro em: https://goo.gl/aH8pW5


Mentira: a infidelidade ao mundo

Toda mentira pode parecer, em situações concretas da vida, muito conveniente. Conveniência nossa, enquanto mentirosos, mas também conveniência para o outro – a quem pretendemos proteger da dura verdade.

Comecemos pelo mais comum: mentir para atender à conveniência de quem mente. Conveniência do canalha, que age mal com vistas a um benefício próprio. Daquele que sonega suas verdadeiras intenções para fazer o outro crer no que não pretende fazer e obter benefícios disso. Conveniência dov “xavequeiro”, do paquerador, que, com intenções de uma cópula singular, faz crer em projetos de longa duração, com direito a nomes para a prole, bairro, arquitetura da futura residência e envelhecimento compartilhado.

Sempre se poderia argumentar que as delícias proporcionadas por uma aproximação física prazerosa, com um parceiro desejado, justificam todas essas pequenas inverdades sobre o que se pretendia da vida no momento da abordagem. Afinal, passam muitas coisas pela nossa cabeça quando cogitamos sobre o futuro, nossas expectativas são mesmo sempre confusas e volúveis.

Podemos deixar de querer rapidamente aquilo que, com muita intensidade, almejamos para nós num instante qualquer; afinal, um orgasmo muda tanta coisa! O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), antes do evolucionismo de Darwin (1809-1882) e da psicanálise de Freud (1856-1939), já ensinava que, em nome do amor, também há mentiras inconscientes que ajudam no “nobre” objetivo da cópula para atingir os fins não tão desejáveis da procriação.

Além da mentira que satisfaz nossas próprias conveniências, mentimos para preservar os sentimentos do outro – para indignação dos fervorosos kantianos! Essa estratégia de afastamento do real, proporcionada pela mentira, fornece um unguento, um instante de alívio em face da tristeza que supostamente a verdade causaria – será que um doente em estado terminal precisa mesmo saber da verdade?

Perceba que não é fácil aprender a viver, pois é muito diferente de aprender geografia ou eletricidade. No caso dessas e outras ciências, mesmo que suas leis possam ser revogadas por alguma nova experiência, enquanto ainda não foram reescritas contam com grande adesão. Já sobre a melhor forma de ação na convivência, as discordâncias são onipresentes.

Confiar é preciso 

A confiança é condição para conhecer o mundo e interagir com ele: sem confiança nenhuma, limitaríamos dramaticamente nosso conhecimento das coisas. Afinal, precisamos saber muito além do que alcançam nossos olhos.

O mundo que efetivamente percebemos é um pedaço quase insignificante da realidade. Nossos sentidos estrangulam nossa percepção do mundo. Em contrapartida, os conhecimentos que nos dão na vida são cada vez mais amplos, ou seja, nossas relações exigem um domínio sempre maior de informações.

A solução desse aparente paradoxo passa pela confiança. Tomamos por corretas ocorrências flagradas e descritas por cientistas, professores e jornalistas. Não há outro jeito, pois as experiências alheias são parte daquilo que conhecemos do mundo.

Assim, o jornal nos abastece de mundos que não podemos conhecer direta e pessoalmente, que estão muito distantes de nós. Da mesma forma, os livros de história nos trazem um passado de verificação ainda menos provável.

Temos que confiar naquilo que nos contam para saber o que aconteceu e o que acontece longe de nossa vista. Desconfiar de tudo o que não vemos por conta própria seria o fim de nossa vida em sociedade.

Para além do conhecimento das coisas, a interação das pessoas também exige confiança. Assim, acreditamos que os homens, ou as instituições com as quais nos relacionamos, agirão de determinada maneira.

Sem confiança, seria impossível haver relações de trabalho. Todo projeto ou planejamento que envolvesse mais de uma pessoa estaria comprometido. A confiança na conduta alheia, institucionalizada ou não, atravessa nossas relações o tempo inteiro.

Assim também é o líder. Não tem como estar do lado de todos os seus subordinados o tempo todo. E quanto mais líder for, quanto mais gente houver sob seu comando, menos presente ele estará. Por isso, não há liderança sem confiança, sem certeza presumida de que o comportamento é o adequado, de que há discernimento para tomar decisões.

Esses exemplos poderiam sugerir que a confiança resulta de uma decisão, de um ato de vontade. Como uma deliberação moral do tipo “a partir de agora eu confio em você por um princípio ético”. É uma impressão equivocada, pois ter confiança não é uma escolha. A confiança não é um princípio nem um valor, porque toda confiança resulta de um passado de experiências sobre o qual temos muito pouco controle. Assim, confiar ou desconfiar independe quase completamente da vontade de quem confia ou desconfia.

(Des)Confiança nas organizações

 Apesar de muitos teóricos e gurus da administração acreditarem que faz pouco tempo que se estuda o papel da confiança nas ciências administrativas e no funcionamento das instituições, os primeiros escritos técnicos da economia como ciência legados por Adam Smith trataram exaustivamente do assunto em duas das obras mais importantes do pensamento econômico: A teoria dos sentimentos morais, publicado em 1759, e A riqueza das nações, publicado em 1776.

E o papel da confiança não se confinou no nascimento desse conhecimento, pois esteve presente em toda a história do pensamento econômico. O renomado economista indiano Amartya Sen (1933) ganhou o Prêmio Nobel de Economia de 1998 tratando desse assunto, que foi posteriormente publicado em seu livroDesenvolvimento como liberdade, lançado em 2000.

Ao contrário do que muitos banners e códigos de ética colocam, há muitos argumentos, como vimos, para demonstrar que ter confiança no líder ou na organização na qual trabalhamos não é uma escolha. Como todo afeto, a confiança não é incondicional e necessita ser constantemente cultivada – não consegue ser mantida com facilidade apenas por palavras.

Uma organização pode perder sua credibilidade com o público interno e o externo devido a pequenas atitudes que contrariam seu discurso. Não adianta exigir confiança dos outros, a única atitude ética que podemos ter é ser dignos dessa confiança.