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Futuristas elencam as tendências da próxima década em termos de profissões

Muitos políticos têm afirmado que o Uber tira o emprego dos taxistas. E não está sozinha no meio político nesse tipo de declaração, ecoando talvez os interesses dos eleitores. A pergunta é: haverá no futuro o emprego como o conhecemos hoje?

O blog da revista Fast Company publicou um texto do jornalista Michael Grothaus que tenta enxergar o futuro e prever o que pode vir por volta de 2025, em dez anos. Ele entrevistou três futuristas – Graeme Codrington, Joe Tankersley e John Danaher – e descobriu o seguinte:

Soldados serão substituídos por robôs. As guerras serão travadas de modo remoto, e por isso haverá mais espaço para pilotos de drones e outras funções ligadas à robótica.

Gestores de private banking e de fortunas darão lugar aos algoritmos. Os operadores de bolsa praticamente não existirão mais, assim como outras funções de bastidores das operações financeiras. Isso deve chegar aos gestores de níveis mais altos.

A inteligência artificial substituirá advogados, contadores, engenheiros. Na verdade, todo profissional que lida principalmente com dados e informações pode estar na mira dos algoritmos.

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Surgirão cada vez mais consultores e coaches para auxiliar uma força de trabalho itinerante, que precisará de ajuda para se vender no mercado. Isso porque o aumento do trabalho sob demanda deve crescer 25%, o que significa que haverá cada vez menos profissionais em empregos fixos. O que já é comum na economia criativa chegará a outros setores.

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Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown não definiram exatamente o que é um “tribalista”, mas talvez seja esse profissional previsto pela matéria: o personal triber. Apesar do nome pomposo, basicamente é um recrutador de mão de obra temporária para executar projetos sob encomenda, algo como um empreiteiro ou um produtor de cinema.

A necessidade de professores freelancers para cursos online será cada vez maior, já que a gama de temas de interesse não para de crescer, assim como os recursos tecnológicos.Untitled-4

O desenvolvimento tecnológico permitirá a expansão dos agricultores urbanos, cujos alimentos produzidos até em prédios deverão passar a fazer parte da cadeia de suprimento de alimentação.

A inversão da pirâmide etária, que agora também atinge os países em desenvolvimento, trará uma série de novas necessidades. Um dos profissionais que surgirão desse fenômeno será o planejador do fim da vida. Ele poderá tanto se encarregar do funeral (que deve se tornar tão ou mais faraônico do que alguns casamentos) como auxiliar o idoso a decidir o fim real da própria vida – cometendo eutanásia, por exemplo.

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Na mesma linha, o cuidador de idosos terá papel cada vez mais relevante na sociedade. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, já há demanda por mulheres na faixa dos 50 a 60 anos, muitas delas viúvas ou divorciadas.

Especialistas em saúde a distância começam a ser requisitados hoje, e isso só tende a crescer, tanto para a operação como para a criação de sistemas de monitoramento e avaliação de pacientes a distância.

Parece ficção científica, mas os futuristas garantiram que técnicos de neuroimplantes serão altamente procurados em um futuro próximo, pois os conhecimentos sobre o cérebro estão se desenvolvendo mais rápido do que qualquer outra área técnica da medicina.

Outra profissão do futuro é o famoso “faz-tudo”. Segundo os futuristas, com a internet das coisas haverá cada vez mais espaço para homens e mulheres que desejem se dedicar a instalar engenhocas nas residências. Se hoje já existem instaladores de aquecedor a gás, de ar-condicionado, de TV por assinatura, imagine o que vem por aí…

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A expansão da internet das coisas também abrirá espaço para o designer de experiência de realidade virtual, que criará ambientes virtuais tanto para o trabalho como para o lazer. Os escritórios virtuais poderão reproduzir o ambiente de trabalho em sua casa.

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Nessa mesma linha, haverá muita demanda para os diversos especialistas em impressão 3D, desde aqueles que vão desenvolver os projetos a serem impressos até pessoas que serão contratadas para produzir realmente os objetos, já que o público doméstico parece não ter se empolgado tanto com a ideia de ter uma impressora em casa.
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QUEM SAI GANHANDO
A primeira impressão é a de que esse futuro do trabalho beneficia apenas os donos do capital e os executivos seniores, certo? Os trabalhadores são seriamente prejudicados, como diz a presidente do Brasil.

Segundo uma reportagem da New York Times Magazine assinada por Adam Davidson em maio último, o arranjo dos tribalistas parece ser interessante também para os trabalhadores, ao menos os do tipo suficientemente habilidoso e autodirigido.

Isso aconteceria porque a oferta desse perfil profissional ainda é bem escassa e, dados os prazos curtos dos projetos e sua complexidade, ele consegue negociar uma remuneração elevada. Por exemplo, um eletricista em um time ad hoc em um set de filmagem ganha, em 12 dias de trabalho, o que um eletricista empregado costuma ganhar em um mês.

A reportagem da New York Times Magazine focalizou as equipes ad hoc de produção cinematográfica, mas conta que esse modelo está sendo usado também para construir pontes, desenhar aplicativos, iniciar restaurantes, desenvolver novos cosméticos. Basta que seja um projeto de curta duração, grande e complexo, e o modelo vira uma boa alternativa à contratação de empresas estruturadas.

A substituição de pessoas por tecnologia (máquinas, robôs, software) projetada pelos futuristas também é abordada na New York Times Magazine de uma maneira positiva. A revista sugere que a fase mais radical dessa substituição já pode estar acabando – sem que nos tenhamos dado conta. Lembrando que a reportagem se refere aos Estados Unidos, vale dar o exemplo utilizado, de Hollywood: apesar de profissionais se sentirem ameaçados por câmeras operadas por robôs, o filme Gravidade, de intenso uso de tecnologia, mostrou que a figura do cinematógrafo não ficou dispensável – apenas ele se limita a fazer o que faz melhor.

“Estamos encerrando uma era dominada por robôs e automação (uma era de máquinas gigantes e caras que requeriam enorme treinamento técnico para serem operadas) e entrando em uma nova era de parcerias entre robôs e seres humanos (na qual os robôs podem ser instruídos sobre o que fazer sem linguagens de programação complicadas, mas apenas com gestos e comandos simples de pessoas)”, escreve a New York Times Magazine. A diferença deve ser enfatizada, porque isso faz o desafio mudar: ele não é mais o de operar um robô, e sim “o de entender exatamente o que precisa ser feito e usar o robô para alcançar aquilo”.

Um livro lançado em 2014, The Second Machine Age: Work, Progress and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies, de Eric Brynjolfsson Andrew McAfee, ambos do Massachusetts Institute of Technology (MIT), é outro que aborda positivamente essas parcerias entre máquinas e pessoas.

Referindo-se ao futuro do trabalho, o livro sugere que as pessoas aprendam a correr com as máquinas, não contra elas. Os autores acreditam que cursos online gratuitos (conhecidos pela sigla MOOCs, em inglês) as ajudarão a fazer a transição e que regulamentações inteligentes podem evitar a marginalização de alguns segmentos de trabalhadores.

E NO BRASIL?

Os futuristas brasileiros estão divididos quanto à visão dos colegas norte-americanos. Michell Zappa, por exemplo, que é consultor de tecnologia emergente e fundador da Envisioning.io, concorda com eles. “Todos os sinais apontam na direção dessas mudanças. Em geral, as pessoas não levam a sério esse tipo de transformação, mas nossos empregos e nossa empregabilidade estão sendo realmente questionados por causa de mudanças tecnológicas”, diz.

Segundo Zappa, não se trata apenas de previsão. “As mudanças já começaram a acontecer, como consequências de tendências tecnológicas que vêm se desenvolvendo há décadas. Não adiantará criar legislação para conter uma mudança, como se tenta fazer com o Uber”, analisa.

O futurista Luis Rasquilha, CEO da Inova Consulting, tem uma visão um pouco diferente. Para ele, profissões consideradas clássicas (nas áreas da engenharia, medicina ou direito) mantêm a relevância. E as tendências emergentes moldarão profissões bem diferentes das vistas hoje.

Ao longo de 2014, a consultoria de Rasquilha fez um estudo em parceria com a FIA, as empresas de recrutamento de executivos Michael Page e Talenses, a agência Sparks & Honey e a revista Exame, e projetou 50 profissões do futuro.

Há, no estudo da Inova, vários pontos similares aos previstos pelos futuristas norte-americanos, que resultam em profissões como conselheiro de aposentadoria, gestor de qualidade de vida, técnico em telemedicina, conselheiro de produtividade, terapeuta experimental, consultor de novas habilidades. Muitos deles poderão tanto ser empregados como formar equipes ad hoc.

A Inova enfatiza, além de profissões ligadas à tecnologia e às informações (como arquivista pessoal, gestor de morte digital e especialista em desintoxicação digital), as relativas ao meio ambiente. Destaca, por exemplo, o gestor de ecorrelações, que reunirá conhecimento técnico ambiental (engenharia ambiental), de legislação da área (direito ambiental) e terá de ser bom em comunicação. E o gestor de resíduos, que responderá pelo direcionamento correto dos resíduos gerados nas mais diferentes organizações e por transformar o lixo em uma fonte de renda.

Para o mundo corporativo, chamam a atenção especialmente funções como o desorganizador corporativo, o consultor de simplificação e o tutor de curiosidade.

A julgar pelo que vêm projetando os futuristas para o futuro próximo, sejam estrangeiros, sejam brasileiros, a tentativa de proteger os taxistas de inovações como o Uber é inócua.