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O famoso diretor de Hollywood pode ter algo a ensinar aos gestores brasileiros: sem seguir as regras da maioria dos seus colegas, ele tem conseguido sobreviver a vários momentos de crise e manter sua saúde em um ambiente ultracompetitivo

Martin Scorsese é o maior diretor de cinema norte-americano vivo e tem trabalhado de forma confiável há 45 anos, Depois de emplacar dois filmes muito comentados como O Lobo de Wall Street (2013) e A Invenção de Hugo Cabret (2011), está finalizando seu novo filme Silence, que deve ser lançado em 2017, trabalhando para a TV com a série Vynil e tem uma programação pronta até 2019.

Tudo isso, em uma era na qual carreiras são medidas em meses em vez de décadas e em um mercado que é um campo de batalha, tão difícil quanto qualquer ambiente corporativo tradicional. Ele nunca conseguiu um blockbuster, mas sempre teve financiamento para seus projetos e, ao contrário de muitos gênios de seu setor, não teve burn-out, não repeliu as pessoas com quem trabalha e geralmente não é descrito como alguém terrível.

O que Scorsese tem que nem todos têm? Mais ainda, sendo desse jeito “diferentão”, ele pode servir de modelo para os gestores corporativos?

LIÇÕES

A revista Fast Company achou que sim e entrevistou Scorsese e sua equipe, há algum tempo, em busca de lições para as empresas. Essa entrevista foi reproduzida na edição 92 de HSM Management e, agora, o site RevistaHSM.com.br seleciona cinco lições que podem inspirar você, leitor, em seu dia a dia.

  1. Fazer “cópias do bem”

Ninguém se atreveria a usar a palavra “cópia” no caso de Scorsese, mas assim como Jorge Paulo Lemann diz que copia as melhores práticas, o diretor inspira-se no trabalho de outros cineastas, que ele se dedica a conhecer profundamente, de John Cassavetes (um mentor) a Steven Spielberg (um amigo), passando por Akira Kurosawa (um gosto adquirido) e George Méliès, o diretor inovador de filmes mudos. E ele aprende com os cineastas são não em termos de seus filmes e inovações, ele estuda suas carreiras e suas vidas (como sobreviveram às pressões) dentro e fora de Hollywood e incorpora aprendizados também nesses campos.

O depoimento de Dante Ferretti, desenhista de produção vencedor do Oscar por seu trabalho em vários filmes de Scorsese, é revelador nesse sentido. “Quando começamos uma filmagem,eu leio os roteiros e depois Marty me mostra filmes –muitos, muitos deles–, com muitas referências diferentes, sobre a cara que ele quer que eu pense para nosso trabalho. Ele tem todos esses filmes na cabeça, vai direto a determinado plano, dizendo: ‘Lembre-se desta imagem, é essa sensação que quero’.”

Scorsese traça linhas claras entre os clássicos e seu trabalho: o socorrista que Nicolas Cage interpretou em Vivendo no limite é um “santo moderno do dia a dia, como o que Rossellini criou em Europa’51”; as sequências de luta em Touro indomável foram retiradas de um balé de Os sapatinhos vermelhos.

Scorsese parece criar projetos que o levam a fazer “benchmarking”, para usar um termo da gestão. Em 1995,  narrou e codirigiu um documentário sobre a carreira deles, chamado A personal journey with Martin Scorsese through American movies [o filme não foi lançado no Brasil, mas seu título em tradução literal seria “Uma jornada pessoal com Martin Scorsese pelo cinema norte-americano”]. É um manual prático em vídeo de como construir uma carreira, disfarçado na maior lição de história do cinema norte-americano já feita.

Remontando a D.W. Griffith, passando por Howard Hawks e Billy Wilder, e chegando até cineastas mais atuais, ele analisa como esses “contrabandistas, iconoclastas e ilusionistas” conseguiram levar uma versão de suas visões criativas para a tela. “Eu estava interessado principalmente naqueles que burlaram o sistema para fazer seus filmes”, explica ele no vídeo. “Para sobreviver, dominar o processo criativo, cada um teve de desenvolver a própria estratégia.”

2. Construir círculos virtuosos da confiança
Ferretti é um dos homens de confiança de Scorsese, ao lado do diretor de fotografia Bob Richardson, da figurinista Sandy Powell, da produtora de elenco Ellen Lewis e, acima de tudo, da montadora Thelma Schoonmaker. Tanto quanto possível, Scorsese gosta de trabalhar com a mesma equipe e com os mesmos atores. Primeiro vieram Robert De Niro, Harvey Keitel e Joe Pesci; mais recentemente, Ben Kingsley e, é claro, Leonardo DiCaprio.

Ele entende que o processo criativo do diretor, como o do gestor, é essencialmente colaborativo, e o fato é que muitos dos momentos de criação de Scorsese aconteceram por sugestão de quem estava próximo a ele. Exemplo: assistindo a algumas tomadas iniciais de Touro indomável, o diretor britânico Michael Powell observou: “Há algo errado com a cor dessas luvas vermelhas”. Nesse momento, Scorsese percebeu que o filme teria de ser feito em preto e branco. Outro exemplo: Quando procurava uma locação para a grande batalha de Five Points em Gangues de Nova York, Ferretti o carregou até a Cinecittà, em Roma. E filmaram Gangues ali.”]

Detalhe: Scorsese confia nos confidentes, mas não depende totalmente deles, contudo. E toma cuidado para, com isso, não ficar refém de suas críticas.

3. Jogar o jogo
Scorsese resiste ao sistema quanto pode, mas tem o bom senso de entender que, às vezes, é preciso ceder ao sistema. Scorsese confortavelmente admite que fez pelo menos dois filmes, de maneira calculada, pelo negócio: A cor do dinheiro, em 1986, e Cabo do medo, em 1991. O início dos anos 1980 foi difícil para ele – seus filmes não eram reconhecidos e não faziam dinheiro.

Entenda-se por sistema “as pessoas dizerem que você deve fazer isso de um jeito, darem ou não financiamento, sugerirem que talvez você devesse usar esse ator e não o outro, e fazer ameaças como ‘se você não fizer assim, vai colocar a bilheteria em risco; se não fizer assado, nunca mais terá financiamento’”.

Ele tratou de começar a jogar o jogo, de certo modo, com Depois de horas, uma comédia excêntrica de baixo orçamento estrelada por Griffin Dunne, feita no prazo – o que é raro para ele (durante 40 noites no SoH) e que teve sucesso. “Mas eles continuavam a me ver como alguém estranho a Hollywood”, relembra Scorsese. Então, ele fez um segundo movimento calculado com A cor do dinheiro, uma iniciativa de Paul Newman. Queria provar a Hollywood que podia conquistar um sucesso de bilheteria. “Precisava fazer com que os cabeças do novo estúdio achassem que deveriam me dar outra chance, me financiar novamente.” O filme estourou e Paul Newman levou para casa o Oscar de melhor ator.

Como resultado desse trabalho mais comercial, ele teria conquistado o direito de finalmente fazer o projeto pelo qual era apaixonado: A última tentação de Cristo. A produção torturante, porém, drenou seus recursos. A última tentação de Cristo começou em 1983, mas, seis semanas antes do início da produção, o estúdio a cancelou.

Então, ele teve de jogar o jogo novamente. Seu agente, e depois chefe da Creative Artists Agency (CAA), Michael Ovitz; Robert De Niro, cativado pelo papel de Max Cady, o ; e Steven Spielberg o convenceram a fazer O Cabo do Medo a contragosto, pois não gostava da história do psicótico criminoso disposto à vingança.

4. Proteger seu trabalho
Na sala de montagem, nas semanas finais de produção, tudo está em risco. O estúdio coloca mais pressão do que nunca para que o filme satisfaça as necessidades de bilheteria. Os atores, por intermédio de seus agentes, imploram por mais tempo na tela. Colegas têm as próprias ideias, e então o diretor se desespera, percebendo todos os erros que cometeu durante aqueles dias de filmagem tão distantes.

Mas segundo Scorsese,  tudo se resume a uma coisa para ele: “Do que o filme precisa, do que a cena precisa?”. Em toda produção, seja um trabalho mais comercial como A cor do dinheiro, seja um projeto apaixonado como A época da inocência, “há uma essência no projeto que você precisa proteger. Não dá para fazer concessões quanto a isso, a história não pode ser adulterada além de certo ponto; você tem de brigar com todo o poder ao redor”.

5. Ter um plano B
Scorsese completa 74 anos e, além dos longa-metragens de ficção, continua sempre envolvido em projetos paralelos, entre eles documentários, musicais, séries para a TV  e o trabalho na The Film Foundation, que restaurou mais de 550 filmes antigos e basicamente recuperou a era do cinema mudo. Scorsese é fundador e presidente da instituição –e está encarregado pessoalmente da restauração de dez filmes, incluindo quatro mudos dirigidos por Alfred Hitchcock.

Ele não abre mão desses trabalhos paralelos, são seus planos B. E explica a importância de ter essa válvula de escape: “Houve um momento, com Os infiltrados, em que eu estava pronto para jogar a toalha. Queria fazer o filme que pensei que tivesse a ver com o roteiro, e achei que o estúdio quisesse outra coisa. Imaginei: ‘Jesus, a essa altura da minha carreira, contanto que eu não estoure o orçamento, só desejo fazer o filme que quero’. Pensei que poderia ser o fim. Mas sabia que, se fosse, eu podia ir filmar os Rolling Stones no palco e pronto”.

Ele acabou finalizando Os infiltrados, como você deve saber. Mas também filmou os Rolling Stones no palco (documentário Shine a light) em sua apresentação mais visceral no palco em décadas, dirigiu um ótimo documentário sobre Bob Dylan (No direction home) e fez o filme sobre George Harrison (Living in the material world).

Menos dinheiro como o do orçamento desses trabalhos paralelo traz mais liberdade, segundo Scorsese. E isso funciona como um ponto de equilíbrio importante para ele, para compensar a frustração com as pressões comerciais.

SEM BUSCAR DINHEIRO

Por mais que os críticos agora admirem Caminhos perigosos, Taxi driver, Touro indomável e até mesmo O rei da comédia, nenhum deles rendeu boa bilheteria. “Nunca me interessei em acumular dinheiro, sabe. E nunca tive cabeça para negócios”, explica ele. “Tive problemas financeiros sérios no decorrer dos anos. Possuo uma ótima casa agora, em Nova York, mas sofri com problemas graves. No meio dos anos 1980 foi patético, quero dizer, meu pai precisou me ajudar. Eu não podia sair, não podia comprar nada. Mas a escolha foi minha.”

Scorsese não liga para dinheiro, e isso lhe dá dinheiro (embora não demais) e satisfação com suas inovações, que são numerosas – a introdução de determinado vernáculo de rua de Nova York nos filmes Caminhos perigosos e Who’s that knocking at my door; a intimidade das cenas de boxe em Touro indomável; a urgência e o ritmo em Os bons companheiros;a reinterpretação ou redescoberta de como o 3D pode reforçar a beleza de um filme sem se intrometer na história, em A Invenção de Hugo Cabret etc. etc. E lhe dá longevidade.

A reportagem da Fast Company em que se baseou esse texto é de Rick Tetzeli.e foi publicada originalmente na Edição 92. O conteúdo foi retrabalhado e atualizado em agosto de 2016.