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Visão de curto prazo da carreira, trabalho em tempo parcial e horário flexível poderão tornar-se a tônica dos gestores em cinco anos, com as mulheres recorrendo mais ao empreendedorismo para gerenciar sua vida familiar | por Janes Rocha

A palavra “desafio” é muito presente nos negócios, porém um número crescente de mulheres tem achado a responsabilidade de ser mãe nos complexos dias atuais muito mais desafiadora do que a carreira executiva.

Essa é uma das convicções de Linda Rottenberg, fundadora e presidente da ONG Endeavor, que atua internacionalmente na promoção do empreendedorismo, e parece ser compartilhada por um número crescente de mulheres no mundo ocidental.

Não é à toa: metade da força de trabalho, elas encontram-se tão ou mais qualificadas do que os homens em termos de formação e já acumulam bastante experiência prática em cargos de gerência. Com esse currículo, obter lucro financeiro imediato realmente parece ser bem mais fácil do que capacitar a próxima leva de habitantes do planeta.

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Trata-se de um modelo mental emergente. Quais seus desdobramentos? Na visão de Rottenberg, daqui a cinco anos, as mulheres vão querer trabalhar meio período ou em horários flexíveis e farão desenhos de carreira de curto prazo –de três ou cinco anos–, que incluirão períodos de empreendedorismo. E, se as empresas estabelecidas não se adaptarem a isso, ficarão sem talentos.

Hoje, empreender é a maneira mais tranquila de trabalhar como dona do próprio tempo, para poder cuidar da casa, da família e até de si mesma. As empreendedoras podem não ser muitas ainda, mas claramente vêm enxergando esse caminho como uma solução para sua vida.

Um estudo recentemente concluído pelo Grupo Troiano de Branding, a pedido da Endeavor, para avaliar o potencial de empreendedorismo na população brasileira mostrou que, embora homens e mulheres tenham a mesma motivação para empreender –visão de oportunidade de enriquecer e de mudar o mundo–, há uma diferença importante entre os sexos: enquanto eles tendem a nascer com esse projeto de vida, elas costumam decidi-lo movidas pelas circunstâncias.

Ana Lúcia Fontes, presidente da Rede Mulher Empreendedora, confirma que o empreendedorismo feminino vem tendo três gatilhos relacionados com a busca da conciliação entre carreira e vida pessoal:

• O desejo de engravidar ou de ficar mais próxima dos filhos e do cônjuge.

• A percepção de hostilidade do mundo corporativo com quem quer ter filhos.

• A resistência a assumir posições mais altas na carreira, resultando quase sempre em “dar o sangue” em maiores doses para a empresa –o que costuma estar associado aos dois gatilhos anteriores, mas, às vezes, também significa baixa autoconfiança das mulheres.

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Ana Lúcia Fontes, líder da Rede Mulher Empreendedora

Fontes fala tanto por experiência própria como pelos anos à frente da Rede, organização não governamental que reúne quase 50 mil empreendedoras cadastradas, mais de 43 mil em um grupo fechado de discussões sobre negócios e mais de 20 mil participantes nos eventos que organiza.

Em 2007, ela largou uma carreira bem-sucedida na Volkswagen para ficar mais tempo com a filha, então com 5 anos, e se associou com amigas para desenvolver dois projetos: um espaço de coworking, Natheia, e uma rede de empreendedoras.

“Em uma época em que não existia apoio à mulher empreendedora, nossa rede queria oferecer uma oportunidade de compartilhar problemas e soluções práticas, desde como registrar e pagar funcionários até questões tributárias”, lembra Fontes.

Competindo com mais de mil projetos, a Ana Fontes foi selecionada para receber estímulo de um programa da Fundação Getulio Vargas financiado pelo banco de investimentos Goldman Sachs, e assim criou a Rede Mulher Empreendedora.

A demanda foi tão grande que a assustou. Uma página da Rede aberta no Facebook, apenas com dicas, chegou rapidamente a mais de 10 mil seguidoras, saindo do controle. Hoje tem quase 288 mil curtidas.

Fontes resolveu criar também um grupo menor, fechado, para oferecer orientação presencial às empreendedoras. Se à primeira reunião compareceram 20 mulheres, na segunda já havia 80. Hoje, Hoje, o grupo fechado conta com 43 mil  participantes e tem o apoio de organizações como o Sebrae, a Endeavor, o Google e oBanco Itaú, entre outras.

Transição geracional

A paisagem do ambiente corporativo está sendo silenciosamente transformada pelas mulheres. Só não o foi ostensivamente ainda porque existe um gap geracional no comando das empresas estabelecidas, na opinião de Rottenberg, mas é questão de tempo. As grandes corporações continuam a ser administradas pelas gerações baby boomer e X.

Os nascidos de 1980 em diante, das gerações Y e Z, hoje já modificam o ambiente com o uso de roupas mais informais e as mesas de pingue-pongue, e vão fazer mudanças muito mais radicais quando assumirem o poder e tiverem filhos.

Para Rottenberg, as empresas –começando pelas de tecnologia, que têm ditado as tendências– vão começar a criar regras que priorizem, em vez das mesas de jogos, a flexibilidade do trabalho para o convívio com a família.

E isso deve ser acelerado pelo fato de que também os homens exigirão a mudança, não só as mulheres. “Os homens da geração Y, que vêm de famílias em que a mãe trabalha fora, buscam essa flexibilidade”, diz a empreendedora.

“Isso muda tudo. Os homens da minha geração –tenho 46 anos– não tiveram mãe que trabalhava fora”, continua.

Rottenberg está segura: a nova mentalidade fará com que homens e mulheres prefiram abrir o próprio negócio ou administrar ter carreiras que sobem e descem a permanecer de modo convencional no mercado de trabalho –ao menos enquanto as empresas não respeitarem suas famílias e o foco de que elas precisam.


Linda Rottenberg e a barreira das mulheres

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Linda Rottenberg

A norte-americana Linda Rottenberg fundou a Endeavor há 20 anos. Hoje, sua organização está em 22 países, incluindo o Brasil, e já selecionou 1.050 empreendedores de 666 empresas que, em 2014, geraram US$ 6,8 bilhões e empregavam 400 mil pessoas. Porém, diz Linda, só 20% dos empreendedores que passaram pela Endeavor são mulheres. Por quê?

Autora do livro Crazy Is a Compliment, que será publicado este ano no Brasil pela HSM Editora, ela discute, em entrevista exclusiva, as razões do gap e projeta uma mudança.

Empreender é bom para as mulheres?

Isso está sendo visto como alternativa, porque, hoje, muito pouca gente vai ter uma carreira de 50 anos na mesma companhia.

As pessoas vão e voltam, entram e saem do mercado de trabalho, algumas vezes trabalham para outras pessoas, às vezes para si mesmas, então acho que temos de olhar agora para a evolução da carreira em três ou cinco anos, e não mais pensar em termos de uma carreira inteira.

Essa evolução da carreira é uma mudança provocada pelas empresas ou pelas mulheres?

Pelas pessoas –mulheres e homens. A questão surgiu primeiro para as mulheres, que querem poder conviver mais com sua família, mas vem se tornando um desafio também para os homens, que desejam jantar com as crianças.

Mais e mais homens se questionam: “Eu tenho de estar no escritório às 9 da manhã, não consigo nem dar um beijo de boa noite nos meus filhos. Será que eu quero mesmo permanecer nesta companhia por mais alguns anos? Não”.

Compatibilizar vida familiar e carreira é um desafio para todos, não só para as mulheres. E, respondendo diretamente a sua primeira pergunta, acho que o empreendedorismo é um bom caminho para isso, sim, porque permite às pessoas serem os próprios chefes durante toda a carreira ou em parte dela.

Temos visto pesquisas indicando que mulheres se mostram melhores gestoras de pessoas do que os homens, mas seriam menos dispostas a correr riscos. Uma mulher pode ser boa empreendedora dessa maneira?

É verdade que as mulheres em geral temem sacrificar sua casa e sua família, mas porque têm uma imagem errada do risco empreendedor.

Essa imagem foi construída por conta desses garotões de moletom da indústria de tecnologia, que correm riscos elevados. As mulheres não se reconhecem nesse modelo
de grandes riscos, nem precisam. Esse é só um dos modelos existentes.

O resultado é que elas não se permitem lançar as próprias ideias malucas; trata-se de um bloqueio psicológico.

Garanto que, quando elas investigam a fundo um empreendimento, encontram menos riscos do que imaginavam, porque o empreendedorismo em geral é redutor, e não maximizador, de riscos.

O que quero dizer é que você não precisa vender sua casa para lançar sua ideia e dar os primeiros passos em um negócio; isso é um mito, que atrapalha as mulheres.

Você pode nos contar um pouco sobre sua própria experiência de conciliar empreendedorismo e vida pessoal?

Eu achava que, para ser a líder de um empreendimento, tinha de ser necessariamente mais independente e mais forte do que a média, mostrando menos da minha vida pessoal. Não é assim que funciona. Na verdade, a vida pessoal me deixou muito mais perto da minha equipe.

Em se tratando de vida pessoal, tive duas experiências bem marcantes: uma quando tive filhas gêmeas e outra quando meu marido foi diagnosticado com câncer nos ossos –nas duas situações, deixei de viajar, por exemplo, algo que faz parte do meu trabalho, já que a Endeavor atua em vários países.

Isso não me distanciou da minha equipe, só me aproximou. Meu marido está bem, graças a Deus. Agora levo minhas meninas para a escola todo dia, estou em casa para o jantar toda noite. Passei a ser um exemplo para os mais jovens da minha equipe que estão formando a própria família e disseram que acompanhar meu processo de conciliação de pessoal e profissional levou-os a acreditar que poderiam fazer o mesmo.

Moral da história: os líderes têm de saber que dar uma de durão pode ter o efeito contrário do desejado: intimidar a equipe em vez de estimulá-la. Acho que nós, líderes, principalmente as mulheres, precisamos mostrar que podemos fazer o trabalho com paixão e também ter tempo para a família, embora isso não seja fácil.

Mas empreender é necessariamente desbravar. Isso não pode assustar as mulheres?

Bem, fui chamada por décadas de “la chica loca[risos], por ser uma das únicas mulheres na sala, 20 anos atrás, nos mercados emergentes. Só que, na verdade, isso me deu uma grande vantagem: todos se lembravam de mim. Enquanto todos vestiam ternos azuis, eu usava uma roupa amarelo-canário. Então, não se assustem; pensem nas vantagens de desbravar.


Dell mantém canal privilegiado com empreendedoras

Algumas (poucas) empresas já se deram conta tanto da importância dos talentos femininos como do uso do empreendedorismo por elas. Foi o caso da Dell, uma das gigantes mundiais da tecnologia da informação.

No próximo mês de junho, a empresa promoverá em Berlim, Alemanha, sua sexta reunião anual com empreendedoras que trabalham com sua marca, em copatrocínio com a Intel (outra que está atenta à tendência). São esperadas mais de 200 das principais empreendedoras de todo o mundo –incluindo do Brasil– para compartilhar melhores práticas em empreendedorismo feminino.

Luciana Madrid, diretora de RH da Dell América Latina, conta que a reunião é vista pela direção global da companhia como uma oportunidade de criar ações de marketing, aproximando a corporação das empreendedoras que, com essa iniciativa, podem crescer em liderança no ambiente tecnológico.

Durante o evento, também serão anunciados os resultados do terceiro Dell Gender-Gedi, estudo anual sobre o empreendedorismo feminino. Em sua última versão, em 2013, o Gedi apontou tendências como aumento das startups lideradas por mulheres nos mercados emergentes e maior dificuldade de acesso das empreendedoras ao capital.


Esta matéria foi publicada originalmente na HSM Management nº 109 e atualizada em março de 2017.