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Entenda melhor o que é essa tecnologia de contratos inteligentes e como ela pode transformar organizações em DAOs | por Heinar Maracy

O que faz grandes conglomerados bancários como Citibank, JP Morgan e Goldman Sachs investirem bilhões de dólares em uma tecnologia inventada por um grupo de anarquistas libertários cujo maior interesse era criar uma alternativa ao sistema bancário?

A resposta pode ser “medo”. “O Vale do Silício está chegando”, disse Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, no início de 2015 em um comunicado histórico a seus acionistas. Ele alertava para o crescimento das chamadas fintechs, empresas que utilizam a tecnologia para oferecer serviços melhores, mais modernos e mais baratos que os oferecidos pelos bancos atualmente. São baseadas em tecnologias como pagamentos por celular (Apple Pay), empréstimos diretos (Lending Club), meios de pagamento (Square, PayPal) e criptomoedas (bitcoin).

Por seu potencial disruptivo, foi a criptomoeda que despertou o interesse dos bancos. O bitcoin permite fazer transferências internacionais e pagamentos de pessoa a pessoa (peer to peer) sem a necessidade de um intermediário, como um banco ou uma casa de câmbio, e, consequentemente, a um custo muito menor. Graças a ele, hoje existem pessoas que compram e vendem produtos ao redor do mundo sem se identificar, sem utilizar contas bancárias ou cartões de crédito – nem pagar taxas.

Se fosse um banco, o bitcoin, com seu valor de mercado de US$ 6,5 bilhões, estaria bem longe da lista dos 40 maiores do mundo, mas seu potencial bastou para chamar a atenção destes.

O bitcoin como moeda ou meio de pagamento não é o que está mais seduzindo o mercado. O verdadeiro ovo de Colombo do bitcoin está na tecnologia em que ele se baseia, chamada blockchain.

O guru de inovação Don Tapscott está lançando em maio o livro  The Blockchain Revolution para explicar o que ele chama de “arquitetura do futuro”. Ele diz: Os desenvolvedores estão trabalhando com o blockchain como a alternativa ao mercado de ações, à auditoria, ao Facebook, ao Uber; é extraordinário”.

O blockchain pode revolucionar o modo como fazemos contratos, transações, vendas de ativos, empréstimos e qualquer relação entre duas partes que necessite de um terceiro para atestar que ambas são idôneas e que o acordo foi cumprido.

É uma tecnologia recente, com sete anos de existência, mas que promete um impacto brutal no modo como fazemos negócios. Prova disso é a rapidez com que passou de tecnologia de hackers contestadores do sistema para uma das maiores apostas tecnológicas dos principais conglomerados financeiros do mundo

“Os bancos sempre fazem isso: pegam algo que pode ser uma ameaça e usam a seu favor”, diz José Prado, do FintechLab. “O uso disseminado do blockchain deve ter um impacto tão grande quanto o da internet em nossa vida.”

O que é o blockchain

Se você já leu algo sobre bitcoin, sabe que ele é uma moeda baseada em criptografia e descentralizada. Em vez de um banco central emitir
bitcoins de tempos em tempos, são os próprios computadores participantes da rede de transações em bitcoins que produzem essas moedas, em um sistema batizado de “mineração”.

O nome remete aos velhos tempos da Corrida do Ouro e do acordo de Bretton Woods, dando aura histórica ao bitcoin, mas o que esses computadores fazem pode ser traduzido de forma mais precisa (e menos glamourosa) em outra comparação: contabilidade.

O blockchain nada mais é que um grande livro-caixa contendo todas as transações feitas em bitcoin, desde a primeira, realizada em 2009, até hoje. Cada transação é validada pelos computadores da rede, que a inclui em uma longa série de números que, além de contê-la, registra o bloco de transações imediatamente anterior a ela, formando uma cadeia criptograficamente inviolável (blockchain = cadeia de blocos). O resultado é um sistema que permite transações 100% confiáveis, que mostra exatamente quando uma quantia mudou de mãos, sem risco de fraudes, e elimina a necessidade de um intermediário apenas para dizer que as duas partes são confiáveis.

A era dos contratos inteligentes

Devido a seu potencial de tornar confiável qualquer tipo de transação, a tecnologia blockchain ganhou vida própria e se separou do bitcoin. Apesar de ser a criptomoeda de maior sucesso no mundo, o bitcoin ainda é visto com ressalvas. Por permitir o uso anônimo, já foi utilizado por traficantes, hackers
e meliantes diversos para conduzir seus negócios. Também foi alvo de ataques especulativos, com seu valor flutuando absurdamente. De alguns centavos em 2009, um bitcoin chegou a valer mais de mil dólares em 2013. Hoje está mais ou menos estabilizado na faixa de US$ 200-US$ 400.

Mas o protocolo blockchain não precisa estar atrelado necessariamente a uma moeda. Ele pode servir para autenticar qualquer tipo de transação, contrato, documentação ou título. É essa funcionalidade que vem atraindo empresas do mercado financeiro, bolsas de valores e empresas de diversas áreas, que investiram maciçamente em fintechs de bitcoin e blockchain no último ano, visando reduzir custos, eliminar a possibilidade de fraude em contratos e desenvolver novos produtos.

“Os bancos mantêm postura cética em relação ao bitcoin, mas se interessaram bastante em relação ao conceito de blockchain; passaram a pesquisar formas de criar suas redes privadas de processamento utilizando essa tecnologia”, diz Safiri Felix, CEO da startup CoinBR.

Segundo ele, “comparar o blockchain público do bitcoin com essas tentativas de blockchains privados é o equivalente a fazer uma relação entre a internet e as diversas redes corporativas de intranet. Blockchains privados tendem a gerar grandes melhorias incrementais nos processos dos bancos e empresas, mas estão longe do potencial disruptivo do bitcoin, que já funciona há mais de sete anos, processando mais de 200 mil transações diárias, sem ser controlado por nenhuma autoridade ou empresa”.

Diversas aplicações

Devido a sua origem monetária, a primeira área que o blockchain deve impactar são as operações bancárias. “O recente interesse dos bancos pelas fintechs deriva de uma mudança de comportamento do consumidor”, diz Prado. “Os millennials acham bancos coisa de velho. Não sabem preencher um cheque e não entendem por que uma transferência demora 24 horas ou mais para ser realizada.”

Pela velocidade com que os bancos estão investindo nessa tecnologia, em dois ou três anos já devemos ver transações feitas com blockchain. “Em 2015, começamos a entender o blockchain. Em 2016, veremos as primeiras provas de conceito. Em 2017, teremos as primeiras aplicações chegando ao mercado, que vão se popularizar até 2020. Em 2025, elas estarão dominando vários mercados”, afirmou Chris Church, diretor de desenvolvimento de negócios da Digital Asset, em um fórum sobre blockchain. Um desses mercados, ainda na seara financeira, deve ser a venda de títulos.

Fora das finanças

O blockchain não deve se limitar a aplicações financeiras, no entanto. Os desenvolvedores veem a tecnologia como uma plataforma sobre a qual podem ser desenvolvidos os aplicativos mais variados. Se ela serve para transferir e legitimar transações de valores, também pode legitimar transações não financeiras, como votações, registros de histórico médico, certificados educacionais e até conceitos abstratos, como a governança de empresas. Por exemplo, hoje já existem sites que oferecem serviços baseados em blockchain para assegurar a existência de documentos (proofofexistence.com) e atestar a idoneidade de assinaturas digitais (BlockSign).

Eleições online à prova de fraude também são outra ideia que o blockchain pode tornar realidade, em um futuro bem próximo. Ainda este ano, a Nasdaq vai utilizar o blockchain em um teste na bolsa da Estônia como mecanismo para permitir que acionistas participem de decisões de suas empresas pela internet.

O registro de valores (terrenos, joias, carros) por meio do blockchain pode ajudar seguradoras a manter o controle sobre objetos segurados e agilizar o pagamento de apólices.

Aliar os contratos inteligentes do blockchain à internet das coisas pode gerar produtos
orwellianos, como um carro que não dá a partida se seu dono atrasar o pagamento da prestação. Parece ficção científica, mas é um exemplo bem prosaico perto de uma ideia bastante popular entre os entusiastas do blockchain: empresas comandadas por software.

Corporações autônomas

O que a expressão “organização autônoma descentralizada” (DAO, na sigla em inglês) evoca ao leitor? Se for um futuro onde os robôs já dominaram a Terra e todos os humanos viraram pessoas jurídicas que prestam serviço para eles, é quase isso mesmo.

Uma DAO é uma empresa digital com normas internas rigidamente estabelecidas dentro do blockchain. Sua governança é transparente, suas finanças podem ser auditadas a qualquer momento e tudo – necessidades de investimento, margem de lucro, distribuição de dividendos, contratações – é definido em linhas de código e seguido automaticamente, sem quase nenhuma ingerência humana.

Parece algo de outro mundo, mas para seus defensores é uma evolução natural do capitalismo. O bitcoin, o protocolo torrent e outras experiências digitais podem, grosso modo, ser considerados DAOs. Não são empresas estritamente, mas se organizam sem necessidade de uma estrutura hierárquica.

O bitcoin tem um conselho de cinco desenvolvedores que podem alterar seu código e milhares de colaboradores que participam ativamente das decisões, colaborando com sugestões e trabalho.

Nada impede que esse conceito gere um novo tipo de empresa. Há alguns anos, um jovem ex-engenheiro do Google sugeriu o uso de blockchain para criar uma DAO de táxis autônomos em um futuro próximo, em que os carros, além de “se autodirigirem”, também dirigiriam a própria empresa, com algoritmos decidindo quanto cobrar por corrida, quando aumentar a frota e que humanos contratar para aprimorar seu software e fazer sua manutenção.

Em outros tempos, Mike Hearn seria considerado mais um desses nerds malucos fora da realidade. Hoje ele é um dos principais desenvolvedores da R3CEV, a startup que está conduzindo o maior teste do uso corporativo de blockchain junto com 40 dos maiores bancos do mundo.


 

Esta reportagem foi publicada originalmente na revista HSM Management nº 116 e atualizada em março de 2017.