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O mundo dominado pela inteligência artificial será uma utopia ou uma distopia? Nenhum dos dois. Viveremos um estado de protopia. E isso representa muitas oportunidades de negócios, diz Kevin Kelly..

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O mundo dominado pela inteligência artificial será diferente; não terá nada a ver com o que vemos hoje. Mas será uma utopia ou uma distopia?

Bem, utopias nunca dão certo; todo cenário utópico contém falhas que o corrompem. E nunca vi uma utopia na qual gostaria de viver; eu morreria de tédio.

Já as distopias, seus opostos sombrios, são bem mais fáceis de imaginar. Quem não consegue pensar em um final apocalíptico do tipo “o último ser humano na Terra”, um mundo governado por robôs, um planeta se desintegrando lentamente em favelas ou um armagedom nuclear?

Há infinitas possibilidades para o colapso da civilização moderna, mas o grande defeito da maioria das narrativas distópicas é que elas não se sustentam. Na verdade, é difícil destruir a civilização: quanto mais arrasador o desastre, mais rápido as chamas do caos se extinguem.

Nosso destino, com a inteligência artificial, não passa nem pela distopia nem pela utopia. A tecnologia está nos levando à protopia. Para ser mais preciso, nós já vivemos a protopia, que é um processo de tornar-se, não um destino.

É difícil perceber a protopia, porque ela cria quase tantos problemas quanto benefícios. Essa expansão circular de problemas e soluções oculta uma acumulação constante de pequenos benefícios líquidos ao longo do tempo. Desde o Iluminismo e a invenção da ciência, conseguimos criar um pouco mais do que destruímos, ano após ano. No modo protópico, as coisas são um pouco melhores hoje do que foram ontem. É um progresso brando.

Atualmente, somos tão cientes das desvantagens das inovações e estamos tão decepcionados com as promessas das utopias do passado que temos dificuldade de enxergar um futuro protópico no qual o amanhã será um pouco melhor do que o hoje. Essa cegueira sobre o futuro talvez explique a aflição que domina o mundo contemporâneo.

Qual é a alternativa a esse quadro? Receber o futuro (e seu contínuo tornar-se) de braços abertos, tendo consciência do lento rastejar protópico a fim de não ignorar as melhorias incrementais que proporciona. É porque ignoramos o progresso brando que somos surpreendidos por coisas que já vêm acontecendo há 20 anos ou mais. Dito isso, há duas boas notícias:

1. Todos nós, sem exceção, seremos eternos novatos no futuro, humildemente tentando acompanhar os avanços. Para começar, a maioria das importantes tecnologias que dominarão nossa vida daqui a 30 anos ainda não foi inventada, de modo que você será, de fato, um novato nelas. Em segundo lugar, como a nova tecnologia vai necessitar de upgrades intermináveis, você continuará a ter status de novato mesmo depois de conhecê-la. Em terceiro lugar, como o ciclo da obsolescência se acelera (o tempo médio de vida de um app de celular já é de apenas 30 dias!), você não terá tempo de dominar qualquer coisa antes de ela ser substituída, de maneira que permanecerá no modo novato para sempre.

2. Nunca houve um dia melhor em toda a história do mundo para inventar alguma coisa como hoje. Os sujeitos grisalhos de 2050 dirão: “Já pensou como teria sido incrível inovar em 2017 ou 2018? Era uma verdadeira terra de ninguém, dava para escolher qualquer negócio, salpicá-lo com inteligência artificial e jogar na nuvem. Poucos dispositivos tinham mais de um ou dois sensores, em vez das centenas de sensores atuais. As expectativas e barreiras eram baixas. Era fácil ser o primeiro”.

Vivemos a melhor época de toda a história da humanidade para começar algo. Você chegou bem a tempo.