Menu

O filósofo pop star de Harvard destaca desvios do universo empresarial não percebidos como antiéticos – relacionados até com temas VIP como meritocracia e empreendedorismo – e faz um alerta: eles podem ser tão ou mais danosos do que a grande corrupção que vai aos tribunais

Michael-Sandel-bioNa Coréia do Sul, até os anos 1980, era possível comprar“ovos de Harvard”. Eram ovos de galinha como os outros vendidos em supermercados, mas em sua caixa havia a imagem de um capelo e a mensagem de que comer ovos torna a pessoa tão inteligente quanto alguém que estuda na tradicional universidade norte-americana.
Com a justificativa de que, para proteger uma marca de abusos como esse, é preciso usá-la, a instituição entrou no negócio do licenciamento, como hoje se vê no Japão, onde se compram calças, blazers e óculos Harvard.

É aceitável a comercialização de um “santuário” do conhecimento que deveria ser um bem comum? O questionamento parte do professor de filosofia Michael Sandel, possivelmente o mais célebre dos mestres de Harvard, protagonista da série de aulas online Justice, assistida por 30 milhões de pessoas em todo o mundo. Para ele, esse licenciamento comprova o fenômeno que vivemos nas últimas três décadas: da economia de mercado passamos à sociedade de mercado, onde quase tudo está à venda.

Em um momento em que o Brasil discute ética como nunca, Sandel aborda, em entrevista exclusiva a HSM Management, corrupções menos percebidas e tão ou mais danosas, relacionando-as com o universo da gestão. Ele crê que a sociedade de mercado traz consequências graves para todos nós e que só a reflexão pode revertê-las.

O que é a sociedade de mercado

Sandel faz questão de explicar a diferença entre a economia de mercado e a sociedade de mercado. “Uma economia de mercado é uma ferramenta valiosa e eficaz para organizar atividades produtivas, que trouxe prosperidade aos países ao redor do mundo, mas apenas uma ferramenta. Já uma sociedade de mercado é um estilo de vida em que os valores de mercado e o pensamento de mercado tendem a dominar todos os aspectos de nossa vida, não só bens materiais, mas vida familiar e relações pessoais, saúde e educação, mídia, política etc.”

Por que a evolução de uma para outra deve merecer nossa atenção? Sandel responde que “os valores e pensamento de mercado podem desencorajar e até corromper os valores que não são de mercado”, tais como amor, amizade, generosidade, solidariedade e espírito cívico, entre outros.

Um exemplo de fácil compreensão dado por Sandel é o da comercialização da gravidez, na chamada “barriga de aluguel”. Tratar a procriação como um produto para gerar lucro é, de acordo com o acadêmico, aplicar a lógica do mercado a uma capacidade humana que deveria ser exercida conforme os valores do amor, da intimidade e da responsabilidade.

Referindo-se ao bem comum como a prioridade de qualquer coletividade, o professor de Harvard enfatiza: “Precisamos ter um debate público sobre onde a lógica do mercado serve ao bem comum e onde ela simplesmente não se encaixa”.

Cinco exemplos de
“pequenas corrupções” 

Na sociedade de mercado, mulheres que oferecem barriga de aluguel ou homens que vendem seu esperma transformam-se em empresas. Governos que vendem praças e estações de metrô ou ainda seus presídios a quem pagar mais tornam-se empresas. E o que ocorre com as empresas tradicionais?

aluga-se-barrigaSegundo ele, além de servirem de inspiração para tais indivíduos e governos, maximizando a mercantilização da sociedade, elas destroem os valores que deveriam ser preservados também no ambiente organizacional. Na entrevista a HSM Management, Michael Sandel discute evidências e consequências de pequenas corrupções em cinco campos bem conhecidos pelos gestores:

Bônus.  Todos os negócios enfrentam a questão de como motivar melhor o desempenho dos colaboradores, mas algumas empresas vão além e oferecem bônus pelo desempenho. E isso é visto com ótimos olhos, como um sinal de que essas empresas são evoluídas. Para Sandel, o que deveria motivar funcionários a cumprir bem sua função, além do salário e dos benefícios, são o senso de orgulho e o de responsabilidade.

“Se os colaboradores acreditarem que seu único motivo para trabalhar duro é o bônus, verão sua relação com a empresa em termos puramente instrumentais, o que tende a desgastar a identificação com a empresa e sua missão”, explica o filósofo.

Sandel cita como exemplo a concessão de bônus aos professores atrelada à performance dos alunos nas avaliações. “Isso pode desgastar o orgulho e a responsabilidade profissional que os professores têm de ensinar bem os alunos”, insiste. Outro caso, na área de cuidados com a saúde, é o dinheiro extra que alguns médicos recebem se seus pacientes atingem certas metas de saúde. “Chega-se a oferecer dinheiro aos próprios pacientes para que parem de fumar ou percam peso”, comenta.

O filósofo faz duas perguntas associadas a esse “suborno”: “Funciona?” e “O incentivo monetário prejudica as atitudes e normas em geral?”. “Não funciona sempre” é a primeira resposta de Sandel. “Já há estudos com doação de sangue mostrando que, quando ela é remunerada, tende a diminuir”. E, sim, potencialmente corrompe as motivações mais altas que se quer das pessoas. “Os pacientes têm de cuidar da saúde por visarem o próprio bem, assim como os estudantes devem estudar bastante, porque aprender é essencial.”

Meritocracia. “Costuma ser um corretivo importante para a tendência, corrompida, de empregar ou promover apenas parentes, amigos ou amigos de amigos. No entanto, quando práticas meritocráticas chegam ao extremo, elas criam uma pressão para competir que destrói o senso de comunidade e propósito comum que uma cultura corporativa saudável requer”, afirma o filósofo de Harvard.

Privatização. “Em alguns casos, pode ser uma alternativa desejável para um Estado burocrático indiferente e às vezes corrupto, mas, em muitas ocasiões, introduz uma corrupção própria.” Essa é a principal preocupação de Sandel com a privatização do bem público, que ele vê acontecer de modo generalizado.

“Em muitas partes do mundo há uma confiança crescente em escolas, hospitais, prisões e até soldados comerciais”, observa o professor. Ele comenta que, durante as guerras no Iraque e no Afeganistão, havia mais contratantes militares privados atuando do que tropas do governo norte-americano, o que sugere que os Estados Unidos terceirizam suas guerras às empresas privadas.

“Não sou contra isso de maneira absoluta, mas sou contra o fato de que não tivemos um debate público sobre se queríamos terceirizar a guerra ou outras experiências públicas a empresas privadas, uma vez que a privatização introduz elementos corruptivos próprios.”

Marketing. Sandel é categórico quando diz que bens públicos precisam manter certa distância do marketing. “Não creio que bens públicos devam ser batizados com nomes de empresas, principalmente as escolas, que têm de ser tratadas como santuários para que passem a ser vistas como tais”, afirma.

O mesmo vale para outra ferramenta do marketing, a segmentação de clientes, que leva ao que ele chama de “camarotização”. Em outras palavras, espaços VIP para clientes premium, como se vê nos estádios de futebol, são uma corrupção do bem comum típica da sociedade de mercado.

problema-da-desigualdade-2Empreendedorismo. Até algo tão saudável para a economia como o empreendedorismo tem sido impactado pela sociedade de mercado. Sandel costuma contar a história do Cryobank, banco de esperma com unidades nas costas leste e oeste dos EUA, estrategicamente situadas perto de universidades como Harvard, MIT, Stanford e Berkeley. Eles viram a oportunidade de oferecer esperma de homens inteligentes –os alunos são os doadores e há informações sobre seu campo de estudo– e de proporcionar uma renda aos estudantes (US$ 105 por semana). “Mas a capacidade reprodutiva masculina deveria realmente ser tratada segundo as regras do mercado?”, pergunta-se o filósofo.

Liderança, filosofia, felicidade

O professor de Harvard acredita que as empresas podem ajudar a reverter essa mentalidade de mercado. “Os líderes executivos mais visionários já começam a fazer isso, conscientes da necessidade de cultivar valores e uma cultura corporativa que incluam a responsabilidade social”, afirma.

Para Sandel, as empresas precisam cada vez mais de executivos que ajam como líderes, não de gestores, e o mesmo vale para os governos, tomados por gestores tecnocratas.

“Ao abordar missão e propósito, a liderança se engaja em questões negligenciadas pela gestão, que é focada apenas em descobrir os meios e mecanismos para atingir com eficiência determinado”, comenta, enfatizando que a própria competição entre empresas deve ter limites definidos por missão e propósito.

O crescente interesse das empresas por filosofia e mesmo suas preocupações com questões como felicidade confirmam, segundo Sandel, a consciência crescente no mundo dos negócios de que precisamos discutir grandes questões sobre valores e ética.

“Como filosofia tem menos a ver com respostas definitivas e mais com perguntas certas, auxilia muito os líderes em sua missão e propósito.”

coercao-ou-corrupcao

Brasil e emergentes

Como é a sociedade de mercado nos países em desenvolvimento? Citando lugares que visita com alguma frequência, como Brasil, China, Índia, Colômbia e Coreia do Sul, o professor de Harvard diz ter feito uma descoberta comum: “Os mercados foram bons para esses países nas últimas décadas, tirando muita gente da pobreza, porém geraram uma desigualdade crescente, criaram novos desafios ambientais e não resolveram a persistente corrupção”.

Apesar dos pesares, Sandel se declara um otimista em relação aos países em desenvolvimento. Isso porque ela nunca viu, nessas sociedades, tantas pessoas querendo debater o bem comum como vê hoje.

=======================================

Outra análise sobre o custo e o benefício

O filósofo de Harvard Michael Sandel coloca em xeque um dos pilares do pensamento empresarial: a análise de custos e benefícios, que define a “criação de valor”. Você já quantificou os benefícios e subtraiu os custos de várias opções a sua disposição para decidir-se pelo que tivesse resultado final mais elevado? Fazemos isso quase todos os dias, mas, em um dos episódios de sua série Justice, Michael Sandel questiona o uso indiscriminado da análise custo-benefício.

Explicando que esse raciocínio remonta à filosofia utilitarista de Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), para os quais maximizar o bem maior era a única forma de moralidade, Sandel oferece dois exemplos de que isso tem sido usado por empresas e governos para pôr preço em tudo:

  • Em 2001, a fabricante de cigarros Philip Morris entregou ao governo da República Tcheca uma análise segundo a qual os benefícios do consumo de cigarros compensavam os custos públicos com fumantes em US$ 147 milhões (referentes ao ano de 1999), não apenas pela criação de empregos e receitas tributárias, como também pelo que as mortes prematuras o faziam economizar em pensões, aposentadorias, tratamentos de saúde pública etc. Estimou-se que o governo economizava US$ 12 a cada morte decorrente do fumo.
  • Na década de 1970, a Ford Motor foi a julgamento nos EUA, pelas mortes causadas por seu carro popular Ford
    Pinto, cujo tanque de gasolina localizado na parte traseira podia explodir em colisões. A montadora argumentou que
    resolveria o problema acrescentando um escudo protetor ao tanque, o que lhe custaria US$ 137 milhões em um recall, mas seu custo com indenizações, tratamentos hospitalares e consertos de veículos, que não ultrapassava US$ 49,5 milhões, fazia essa solução não valer a pena.

A opinião pública tcheca e o júri do caso Ford Pinto rejeitaram tais análises, porém a fixação de um preço para a vida humana em nome do bem maior é algo cada vez mais aceito: não se proibiu o uso de celular ao volante nos EUA, por exemplo, porque os ganhos de agilidade da maioria superam a minoria de acidentes.

Provocador, Sandel perguntou aos alunos de seu curso Justice: “Em uma análise custo-benefício, o prazer da maioria dos romanos da plateia compensaria a dor e a morte da minoria de cristãos devorados pelos leões nos circos da Roma Antiga, certo?”. Certo. Só que não.


Essa matéria foi publicada originalmente na edição 108 da revista HSM Management e atualizada em agosto de 2016.