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Entenda por que o futurismo tem de entrar na rotina de processos das empresas para a tomada de decisões de médio prazo  | por Santiago Bilinkis

Se você sente que sua vida é um filme em movimento acelerado e que é um desafio permanente apenas manter-se, saiba que não é o único. Vivemos em um mundo que nos enterra em informações.

Enquanto todo o conhecimento produzido do início da civilização humana até 2003 somaria 6 exabytes de dados, hoje gera-se a mesma quantidade a cada… dois dias, de acordo com Eric Schmidt, presidente do Google. Um recente relatório da IBM confirma: 90% de toda a informação existente foi criada nos últimos dois anos.

No minuto que você levou para ler o parágrafo anterior, surgiram mais de 300 novas horas de vídeo no YouTube, mais de 3 milhões de novos posts no Facebook, quase 50 milhões de novas mensagens enviadas pelo WhatsApp e centenas de novos milhões de e-mails por aí.

Assim, se o grande desafio há 30 anos era encontrar informações relevantes, agora é encontrar informações relevantes. Sim! Só que antes era o acesso às informações que se mostrava escasso e difícil, e atualmente o culpado é o gigantesco volume de dados disponíveis, que torna quase impossível achar logo o que queremos.

Em muitos aspectos, todos participamos de uma corrida impossível de vencer. Os esforços que fazemos para nos manter atualizados servem apenas para não ficarmos muito para trás em relação aos acontecimentos.

Um irreverente provérbio dinamarquês diz que “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”, mas atrevo-me a fazer duas. A primeira é que o ritmo acelerado de mudanças a que estamos expostos hoje vai se acelerar ainda mais.  A segunda diz respeito ao avanço de disciplinas como a biologia artificial, a neurociência e a medicina regenerativa, que nos levarão a mudanças muito mais profundas e radicais do que qualquer coisa que tenhamos experimentado até agora.

Porém as mesmas mudanças rápidas que nos incomodam no presente abrem portas para um futuro incrível. O prêmio de deixar para trás a nostalgia e enfrentar o desconforto será o de poder acessar novas possibilidades. Estar à altura desse futuro será desafiador, mas a recompensa para aqueles que o conseguirem será grande. E muito de nosso sucesso e satisfação dependerá da compreensão da dinâmica de mudanças para tomar hoje as decisões que melhor moldarão nosso amanhã.

Meu livro Pasaje al Futuro, que compartilha de modo acessível as mudanças científicas e tecnológicas que estão ocorrendo hoje, serve como um guia para indivíduos e empresas que querem desenvolver as atitudes e habilidades necessárias para viver plenamente e ter sucesso no mundo futuro.  A seguir, destaco duas ideias-chave desenvolvidas no livro.

O futurismo e a indústria da carne

Embora a maioria de nós viva com a sensação de estar imerso em uma espiral de mudanças vertiginosa, é notável como, na tomada de decisões de médio prazo, quase não destinamos tempo para entender como mudará o contexto até que a decisão tenha impacto. Nós investimos muito esforço em tentar analisar “a foto” (o estado atual das coisas) e quase nada em imaginar “o filme” (o que vai acontecer daqui para a frente).

A prospectiva (em vez de perspectiva) é um esforço sistemático de usar ferramentas para analisar as informações disponíveis hoje e, assim, cientificamente fazer inferências sobre o amanhã. É importante separá-la de métodos pseudocientíficos como a astrologia e a adivinhação e também de gêneros literários como a ficção científica. Uma de suas ferramentas mais comuns é o planejamento de cenários.

Um exemplo óbvio de como agimos é a escolha da carreira. Considerando o ingresso em uma faculdade, o tempo de curso, a formatura e a colocação no mercado de trabalho, a escolha da formação universitária é uma decisão cujo resultado se materializará em cerca de cinco a dez anos. No entanto, a maioria das pessoas ainda opta por estudar para ter profissões cuja existência em uma década é questionável.  A principal razão de isso acontecer não é outra senão a falta de prospectiva.

Esses erros ocorrem não só no plano individual, mas também no nível das organizações e até no dos países. Quer um caso que nos toca diretamente? A América do Sul é a região que tem o maior gado bovino de todo o mundo. A criação de animais para alimentação e outros derivados como o couro é um dos pilares do sistema econômico em vários países da região, incluindo a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Brasil.

A Argentina, por exemplo, é um país predominantemente plano e com solo excepcionalmente fértil. Grandes áreas são destinadas ao pastoreio ou à produção de grãos para alimentar animais cuja carne depois consumimos ou exportamos. No entanto, é provável que, dentro de 15 a 30 anos, a carne possa ser produzida em um biorreator. Com base em tecnologias semelhantes às utilizadas para a cultura de tecidos e à impressão 3D de órgãos, cientistas e empresas trabalham para viabilizar a produção de uma “picanha” que nunca foi parte de uma vaca.

O impacto dessas tecnologias sobre o mundo em geral será extremamente positivo. O gado bovino, afinal, responde por quase 20% dos gases de efeito estufa (de acordo com a Organização das Nações Unidas, têm um impacto maior que o do setor de transportes como um todo) e consome quantidades inverossímeis de água potável.

Mas, para países pecuaristas como muitos sul-ameri­canos, a picanha de impressora 3D pode ter consequências extremamente negativas. Apesar dessa possibilida­de, quase ninguém na Argentina – ou no Brasil – está fazendo algo sobre isso. Provavelmente não é coincidência que a tecnologia que levou ao primeiro ham­búrguer artificial, apresentado em 2013, foi desenvolvida na Holanda, nação com quase nenhum território para uma pecuária viável. Se os países sul-americanos não investirem no desenvolvimento dessa tecnologia, a relevância regional na produção mundial de carne será apenas uma lembrança. E isso não será resultado da decisão deliberada de redirecionar a economia para outra área, mas da falta de previsão, da desinformação e/ou da preguiça.

Não dá para deter um rio com a mão

Onde a incapacidade de entender o filme e superar a resistência à mudança causará o maior dano? Provavelmente, no âmbito dos negócios. Os indivíduos pagarão um preço por não praticar a prospectiva, mas não morrerão em função disso; já as empresas morrerão.

Na história recente, talvez o caso mais paradigmático ainda seja o da Kodak. Fundada mais de 130 anos atrás, a empresa foi durante décadas a líder indiscutível da indústria fotográfica mundial. Tinha tanto destaque no mercado que nada parecia poder fazê-la cambalear. Nada externo, é claro – apenas a própria incapacidade de mudar.

Só que esse exemplo está longe de ser único. O processo gerado pela digitalização da música foi muito semelhante: um bem que foi analógico e vendido em discos de vinil, fitas cassete e CDs virou digital com a chegada do MP3. Como reagiram as gravadoras e os empresários até agora? Da pior maneira possível! Tentando deter o avanço na Justiça.

De repente, a Apple apareceu, e depois a Pandora e o Spotify. As vendas de CDs caíram e o streaming domina o mercado de música. Enquanto as ações da Apple se valorizam acentuadamente desde 2003 na bolsa de valores, as das gravadoras despencam.

O processo de digitalização tem produzido efeitos semelhantes setor após setor – a desintegração da Blockbuster pela Netflix é o exemplo em matéria de distribuição de vídeo. No entanto, quando novos setores são digitalizados, suas empresas tendem a repetir o erro. Neste exato momento em que há a impressão 3D, os proprietários dos direitos de determinados ativos físicos facilmente replicáveis atacam The Pirate Bay por distribuir gratuitamente modelos que permitem a impressão. Não aprenderam que acabar com o Napster não eliminou a pirataria.

Recentemente, a Moulinsart, empresa que detém os direitos de propriedade intelectual para o personagem Tintim, entrou na Justiça contra o site Thingiverse por razões semelhantes. Se a Moulinsart quiser continuar a ter um negócio em poucos anos, deve, em vez de tentar parar o trem, tornar-se o melhor provedor de modelos tridimensionais de Tintim, superando a qualidade dos disponíveis em outros sites e por um preço que faça a pirataria não valer a pena.

Kim Dotcom, o polêmico fundador do site Megaup­load, fez uma declaração que sintetiza isso: “Tentar me parar com processos judiciais é como mergulhar sua mão em um rio. Você não pode parar um rio com a mão. A água simplesmente flui ao redor”.

De alguma forma, em nosso cotidiano vivemos o mesmo fenômeno que acontece com essas empresas. Tanto pessoal como profissionalmente, o mundo digital nos invade: muda a maneira ideal de fazer as coisas, mudam os modelos de negócio. Para cada situação, ele nos obriga a tomar uma decisão: queremos ser a Apple ou a Warner? Queremos ser a Kodak ou a Canon?

A difícil moral dessa história é que, se alguém vai matar seu modelo de negócio (ou, no plano individual, eliminar sua fonte de sobrevivência), é melhor que você mesmo faça isso – com toda a dor que envolve abandonar a “fórmula de sucesso” que funcionou até aqui, pois é exatamente o que nos levou para o sucesso no século 20 que nos condenará ao fracasso no 21.

Saber quando e como mudar, mesmo à custa de perder dinheiro no curto prazo, tornou-se a nova chave para a sobrevivência.


SantiagoBilinkisSantiago Bilinkis é empreendedor e tecnólogo argentino, cofundador da Officenet, do Restorando e da Quasar Builders e autor de Pasaje al Futuro (ed. Random House). Pode ser acompanhado no blog Riesgo y Recompensa.