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Conheça um negócio franco-brasileiro que está conseguindo trabalhar com um produto sustentável e competitivo | por Sandra Regina da Silva

Lançada em 2004, a Vert é uma marca de tênis com design em Paris e fabricação no Brasil, com matérias-primas nacionais. Inicialmente, os empreendedores franceses François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp a comercializavam, com o nome “Veja”, só na Europa, onde os consumidores são mais conscientes em relação à sustentabilidade. Em 2014, começou a ser vendida no Brasil com o nome “Vert”.

Morillion e Kopp queriam fazer um tênis diferente e viajaram pelo mundo pesquisando projetos de sustentabilidade em busca de inspiração.  A maioria era superficial – “não ia muito além de reciclagem de lixo ou economia de água”, como diz Morillion – e eles queriam uma operação realmente sustentável. Como, no Brasil, havia riqueza de matéria-prima, mão de obra qualificada e expertise em fazer calçados, acharam que aqui gerariam o impacto que procuravam.

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Morillion detalha esse impacto:

Algodão – É cultivado sem insumo químico por associações e cooperativas de agricultores do sertão nordestino. São 700 famílias que seguem um modelo de desenvolvimento sustentável, sob o princípio da agroecologia. Com o apoio do Projeto Dom Helder Câmara, da Embrapa Algodão e do Escritório de Planejamento e Assessoria Rural (Esplar), elas comercializam algodão orgânico certificado, que, depois, é fiado e transformado no tecido usado nos tênis.

Borracha – A matéria-prima é extraída de árvores da Floresta Amazônica por cerca de cem famílias de seringueiros da Cooperativa Chico Mendes, em parceria com o World Wildlife Fund (WWF) e o governo do Acre. Em um processo desenvolvido pelo professor Floriano Pastore, da Universidade de Brasília, os próprios produtores transformam o látex extraído em folhas de borracha, como um produto semiacabado.  A Vert compra diretamente essas folhas, que são moldadas na fábrica e se tornam solas para os tênis.

Couro – O controle é feito a partir da chegada ao curtume para tratamento, e a empresa garante que a matéria-prima não vem da Amazônia, onde o gado é um dos principais fatores de desmatamento. Todas as peles são curtidas em processo low-chrome, que reduz a poluição das águas residuais. O couro é curtido com extratos de acácia, um tanino natural não poluente.

Sem intermediários – A Vert negocia diretamente com os representantes dos pequenos produtores, selando contratos de compra de longo prazo e preço garantido para a safra.  Além disso, paga preços entre 30% e 60% acima do mercado, dependendo da matéria-prima, e mantém iniciativas como um prêmio coletivo anual que apoia projetos na comunidade dos produtores, para cultivar bons relacionamentos.

Colaboradores – Em sua fábrica, no Vale dos Sinos (RS), com produção de cerca de 300 mil pares por ano, a Vert advoga o respeito aos direitos dos trabalhadores.  As fábricas e os ateliês parceiros passam por auditorias sociais, realizadas todos os anos.

Transparência – A empresa lista em seu site os limites do que faz pelo meio ambiente, usando a expressão “longe da perfeição”: informa que os cadarços não são de algodão orgânico; a espuma de sustentação ao cano dos tênis é sintética, feita à base de petróleo; a sola contém 30% a 40% de borracha nativa, e a palmilha, 5% – o que é necessário para garantir flexibilidade, resistência e conforto; os ilhoses, apesar de não conterem níquel, são de metal e sem controle de origem; falta um programa de reciclagem; e os pigmentos para tingir couro, borracha e algodão ainda são os convencionais, embora autorizados pelo selo ecológico Ecolabel.

O plano é atacar todas essas vulnerabilidades no futuro. Um projeto, já em andamento, diz respeito ao uso de tinturas vegetais não poluentes para obter as cores, e a prioridade é o maior controle da origem do couro, acompanhando desde a alimentação e as condições de vida do gado até o curtimento e seus efeitos sobre o meio ambiente. Isso não é simples, porém; requer trabalhar diretamente com os produtores de gado, sem intermediários, o que não ocorre hoje. Pelo menos, já há uma coleção chamada “ Veganos”, com tênis que não usam couro animal; foi desenvolvida para atender a uma demanda específica de consumidores.

Ao que tudo indica, a Vert está conseguindo, sim, ser menos superficial no compromisso com a sustentabilidade. Mas e quanto ao valor oferecido ao consumidor? Os preços dos tênis são os de mercado, variando de R$ 270 a R$ 670, conforme o modelo; a preocupação com o conforto fica evidente na opção pelo uso de um percentual de borracha obtida pelo método tradicional na sola e, no quesito estético, o design parisiense tem grande aceitação.

Então, será que a empresa está sendo premiada pelos consumidores por isso? Na Europa, a resposta é sim; os tênis já são distribuídos em mil lojas, um bom número para uma empresa de nicho. No Brasil, no entanto,só 50 lojas, aproximadamente, vendem a marca. O melhor sinal vem dos coworkings e eventos de startups de São Paulo, onde já se veem muitos millennials usando os tênis com o “V” na lateral. Morillion acredita, por isso, que a adoção crescerá. “Sustentabilidade é uma necessidade que, de tão necessária, virou moda!”